¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, outubro 07, 2007
 
EU, PRECURSOR



Um amigo me envia notícia informando que a Suécia está criando uma nova revolução social, com a introdução da chamada "Sociedade B" - uma sociedade que leva em conta os diferentes ritmos biológicos dos indivíduos para introduzir horários alternativos de funcionamento para escolas, locais de trabalho, universidades e organizações. A primeira instituição a implementar o esquema seria uma escola secundária de gotemburgo, que a partir do mês passado passou a oferecer turnos opcionais entre 8 da noite e 8 da manhã. "Por que precisamos trabalhar todos no mesmo horário, e enfrentar os mesmos engarrafamentos?" - pergunta o manifesto do movimento B-Samfundet (Sociedade B). "Por que temos que correr ao mesmo tempo para pegar as crianças na escola antes que elas fechem? Por que tudo tem que funcionar nos mesmos ritmos e horários, se isso causa problemas gigantescos na infra-estrutura da sociedade?"

Segundo a notícia, a B-Samfundet tem origem na Dinamarca, onde o movimento foi criado no ano passado. Neste outono europeu, a Sociedade B será introduzida na Noruega e na Finlândia, e para outubro está previsto o lançamento na Grã-Bretanha.

Os suecos que me desculpem, mas a B-Samfundet desde há muito existe em São Paulo. Não que haja escolas entre as 8 da noite e 8 da manhã. Ainda não chegamos lá. Mas estima-se que em São Paulo haja pelo menos 800 mil pessoas vivendo e trabalhando à noite. Ou seja, quase a população de Estocolmo. Entre este quase milhão, estão prestadores de serviços, como funcionários de usinas, hospitais, bares e restaurantes e mais a outra porção que busca lazer noturno. Há muitas cidades no mundo que não dormem. Assim, de improviso, me ocorrem cidades como Nova York e Madri. Os suecos não estão criando coisa alguma. Acham que estão criando porque desde há muito costumam dormir cedo. Paris é outra cidade que dorme cedo. Às onze da noite, Paris começa a fechar. É preciso conhecer muito bem a cidade, para comer algo depois da meia-noite.

A Sociedade B se basearia em pesquisas científicas que indicam que cada indivíduo tem seu próprio ritmo biológico, uma espécie de "relógio interno" que é geneticamente determinado. Está muito em moda dizer que todo comportamento tem algo genético. Homossexualismo, por exemplo, não seria uma opção, mas postura determinada por um gene qualquer. Só não se admite o gene da inteligência. A existência deste implicaria que há seres que não o têm, e afirmar isto é heresia politicamente incorreta.

"Nosso objetivo é acabar com as rígidas disciplinas de horário da sociedade industrial, em que todos chegam ao mesmo tempo e saem na mesma hora", disse em entrevista a BBC Brasil Erika Augustinsson, vice-presidente do B-Samfundet.

Modéstia a parte, muito antes dos suecos, proclamei esta revolução. Desde décadas, consegui organizar minha vida de modo a não viver as rígidas disciplinas de horário da tal de sociedade industrial, em que todos chegam ao mesmo tempo e saem na mesma hora. Mas não penso que tenha um relógio interno geneticamente determinado. Desde há muito vivo à noite, porque gosto do silêncio noturno e considero as manhãs absolutamente sem graça. Manhãs, para mim, é o momento de abastecimento das cidades, de carga e descarga. A vida mesmo, só começa lá pelas onze.

Se há algum precursor da B-Samfundet, é este quem vos escreve. Os suecos estão me roubando os direitos de autor sobre um estilo de vida.