¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, outubro 23, 2007
 
GERALDINE E O TEMPO QUE PASSA



Ela era minha companheira constante em meus domingos de Madri, há precisamente vinte anos. Lá pelas 11hs da manhã, eu comprava El País e Le Monde e me dirigia ao Café de Oriente, um dos meus diletos na Europa, senão o mais dileto entre os diletos. Fica em frente ao Palácio Real, que está a ocidente. Daí o nome de Oriente. Mesas e colunas de mármore rosa, muita madeira, cortinas de veludo, candelabros soberbos caindo do teto, uma luz macia propícia à leitura e, nos dias em que vivi por lá, um gorrioncillo que se divertia em vôos rasantes de ponta a ponta no café.

Como profissional de bares, tenho minhas locações prediletas. Minha mesa ficava em frente a uma janela que dava para o Palácio Real, janela pequena mas que iluminava melhor minhas leituras. Invariavelmente, ela sentava na mesa a meu lado, pedia um vinho branco acompanhado de algumas tapas. Quanto a mim, começava com um chinchón, para depois pensar nos frutos da terra e do sol.

Nunca lhe dirigi a palavra, defendo a idéia de que as estrelas não devem ser perturbadas em seus lazeres públicos. Tampouco teria algo a dizer-lhe. Era magérrima, suas coxas deveriam ser apenas um pouco mais grossas que um copo de cerveja. Apesar de ostentar uma semicalvície que lhe avançava pelo crânio, de seu rosto emanava charme e inteligência. Sentia-me bem ao lado dela. Tínhamos algo em comum, nosso amor pelo Oriente.

A revejo hoje, na contracapa de El País. Sorriso grande, alegre, de peruca e rosto já devastado pelas rugas. Está em sua mesa predileta no Oriente, empunhando uma taça de vinho branco e degustando batatas fritas e canapés de camarões. Logo, a foto deve ser de domingo passado. "Quando me vêem na rua e lhes dizem: 'olhem, aí vai a filha de Charlot', as crianças me olham, em meus anos, e não conseguem acreditar. Assim, esclareço que não sou a filha, mas a mãe de Charlot, e isto lhes parece muito mais lógico".

Milagres do cinema. O pai continua jovem. Geraldine Chaplin envelheceu. O tempo não perdoa.