¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, outubro 05, 2007
 
LA BELLA FIDANZATA NUDA



Há mais de quatro anos, comentei uma curiosa discussão semântica ocorrida na imprensa paulista. Na ocasião, Barbara Gancia, da Folha de São Paulo, se espantava com "a desenvoltura da mídia e dos envolvidos no caso dos grampos telefônicos na Bahia em tratar a senhora Adriana Barreto como ex-namorada do falecido ACM. "Vem cá: o senador não é um homem casado? Então que história é essa de "ex-namorada"? Até prova em contrário, Adriana foi ou voltará a ser (se depender da vontade dos pais) a amante de ACM".

Já Roberto Pompeu Toledo, colunista de Veja, aproveitava o ensejo e fazia ironias, dizendo que ficara feio falar em amante. "A palavra invoca trampolinagem de mau gosto, libertinagem de subúrbio. Só não é mais brega que "amásia". Então, usa-se "namorada", ou "ex-namorada", para qualificar a mulher que incorreu na fúria do poderoso senador. Pelos padrões atuais de bom gosto, a língua talvez não ofereça mesmo melhor alternativa. Mas surge um problema. Namorar, pelo que sempre se entendeu, e ainda em geral se entende, é para pessoas livres e desimpedidas. Ora, o personagem em questão é homem casado, pai de filhos e avô de netos. Pode-se falar com tanta naturalidade que tem, ou tinha, namorada? Se se pode, é porque estamos no Islã e não sabíamos. Caiu mais um tabu, e está liberada a poligamia".

A primeira vista, dois íntegros profissionais da palavra denunciavam a hipocrisia com que as palavras são usadas. Mas só à primeira vista. Ocorria que o senador baiano, apesar de seu apoio ao novel presidente, não era um esquerdista de souche. Era homem de direita e uma espécie de símbolo do mal. Tinha amantes, portanto. Como um reles Fernandinho Beira-Mar. Quem não lembra de Zélia Cardoso de Mello, a amante do ministro da Justiça Bernardo Cabral? Ou de Suzana Alves, a amante de PC Farias? São personagens do século passado. Mas o século passado recém passou. Zélia, para quem não mais lembra, era ministra de Fernando Collor de Mello. Causou furor na época a revelação de Cabral de que sua posição favorita era ficar de quatro. Caiu bem no imaginário popular a imagem de uma ministra de quatro. Já o PC Farias, se alguém esqueceu, era o caixa dois de Collor. Tanto o ministro da Justiça como PC Farias não tinham namoradas, mas amantes.

Já a prefeita do PT na época, dona Marta Suplicy, esta tinha namorado. Na grande imprensa, ao referir-se ao gigolô argentino, redator algum ousava falar em amante da prefeita. Muito menos a corajosa cronista Barbara Gancia. Falava-se da prefeita e seu namorado, como se dona Marta já não fosse suficientemente grandinha para ter algo mais que um namorado. Ou da prefeita e seu companheiro. Ou ainda, a prefeita e seu consorte. Ou marido, mesmo que marido não fosse.

Para o Estado de São Paulo, o enfoque era outro: Dona Marta iria casar. "Marta Suplicy (PT) anunciou que pretende oficializar a relação com o franco-argentino Luís Favre ainda este ano, assim que for concluído o processo de separação dela com o ex, o senador Eduardo Suplicy" - escreveu Deborah Bresser. Já a Folha de São Paulo, sempre hesitante entre o politicamente correto e o desejo de bem informar, ou talvez por achar o namoro demasiadamente longo, promoveu o compadrito portenho da alcaidessa a marido. É curioso que Barbara Gancia, colega de empresa de Mônica Bergamo, não tenha reclamado quando esta colunista falou em Marta Suplicy e "seu marido, Luis Favre".

Em seu desejo de ser elegante com a prefeita, o jornal acabou promovendo dona Marta a bígama. Oficialmente, a prefeita ainda não se divorciara de seu ex. Se Dona Flor e seus dois maridos pertencia ao mundo da ficção, a Folha ofereceu a seus leitores uma fatia da vida real, Dona Marta e seus dois maridos. Para não confundir a prefeita com essas vulgares amantes, típicas da direita reacionária, promoveu-a a marida. Como diria sem querer dizer - mas disse - Roberto Pompeu de Toledo, "caiu mais um tabu, e está liberada a poligamia".

César Giobbi, em sua coluna no Estado de São Paulo, dizia que a prefeita estava indignada porque até então "ninguém tinha mencionado a questão moral, já que ACM é casado". Parece que a alcaidessa, de tanto a imprensa falar em seu marido Luis Favre, convenceu-se de sua condição de marida. E até mesmo esqueceu que, para casar de novo, precisava primeiro divorciar-se de seu ex, o que até então não havia ocorrido.

Segundo dona Marta, "se a situação a envolvesse ou a governadora Rosinha Matheus ou Benedita da Silva, por exemplo, aí, sim, fariam muito barulho em torno dessa questão". Não é verdade. Sobre quem milita na esquerda e sobre sua honra caem todas as benevolências da imprensa. Nossos bravos colunistas pareciam ter sido acometidos de reflexos da Guerra Fria. Por questão de ofício, tinham uma convivência quase diária com a prefeita e sua trajetória, mas foram procurar amantes na biografia ... do baiano. Pois amante é atributo do mal, da direitona clássica. A casta esquerda tem maridos.

Foi o que escrevi na época. Hoje, a imprensa parece ter-se acostumado com as amantes, já que na affaire do senador Renan Calheiros ninguém cogitou em falar de namorada. Aliás, senador está virando palavra que faz dobradinha com amante. O tempora, o mores! Amante, há algumas décadas, era mulher de bandido. Hoje, é direito adquirido de senador. Onde se viu senador sem amante?

Se no Brasil a imprensa parece ter assumido a palavrinha, o mesmo não ocorre na Itália. Minha interlocutora predileta dos últimos anos me envia nota de um hot site italiano:

Brasile, la giornalista Monica nuda per Playboy

Si chiama Monica Veloso e oltre che una giornalista è anche la bella fidanzata del presidente del senatore brasiliano Renan Calheiros. Ha posato nuda per l'ultimo numero del magazine Playboy.


Noivas nuas. Mudaram os tempos e eu não mudei? Sei lá, mas a expressão me soa um tanto paradoxal.