¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, outubro 07, 2007
 
SOBRE SINOS E CÍMBALOS


Do Humberto Quaglio, recebo estas considerações:


Prezado Janer,

Saudações,

Logo que terminei de de ler seu artigo "O antropólogo e os sinos", tive a impressão que o Roberto da Matta, ao tentar citar o apóstolo Paulo, ou foi traído pela memória, e confundiu címbalo com sino, ou leu mesmo alguma "bíblia espúria", alguma tradução malfeita. O texto bíblico gravado na minha memória, (enfiado a força na minha cabeça em quinze anos de permanência compulsória em uma igreja protestante), era o da edição mais utilizada pela congregação, a Edição Revista e Atualizada no Brasil da bíblia de João Ferreira de Almeida: "... o címbalo que retine". Esta edição, como consta no seu artigo, não faz menção a sino, mas a címbalo, que são coisas diferentes.

No entanto, a edição revista e atualizada no Brasil foi feita, se não me engano, na década de 1960. Antes, a maior parte das igrejas protestantes no Brasil utilizavam a Edição Revista e Corrigida "Traduzida em Portuguez pelo padre João Ferreira D'Almeida", como se grafava na época. Tenho duas destas edições em casa, e meu pai tem uma que pertenceu ao meu avô, muito antiga, grande como uma tábua de cortar carne, impressa em Londres pela Sociedade Báblica Britânica, do tempo em que bíblias ainda não eram impressas no Brasil. Dei uma olhada em 1 Coríntios (ou "Corinthios") 13:1 na edição revista e corrigida, e lá estava: "...o sino que tine".

Outra edição diferente que eu tenho da bíblia de Almeida, a versão revisada da Imprensa Bíblica Brasileira, de 1991, menciona címbalo. A única bíblia católica que eu tenho, uma tradução da editora Vozes, de 1982, menciona tímpano no lugar de címbalo. A Bíblia na Linguagem de Hoje da Sociedade Bíblica do Brasil traz, no mesmo versículo, "...o som do sino", mas eu não levo em consideração porque a BLH é uma espécie de bíblia para leitores com vocabulário pobre.

Não estou escrevendo em defesa de da Matta, mesmo porque Paulo não falou nada sobre a qualidade do metal do címbalo (ou sino), e nem sobre amor no som da coisa, mas acho que a edição revista e corrigida de Almeida não é espúria. Ela foi, por muitas décadas, a única bíblia utilizada pelos protestantes de língua portuguesa e, talvez, se não me engano, a única bíblia de fácil acesso no Brasil, pois a massa de católicos lusófonos raramente lê a bíblia e, historicamente, a igreja romana nunca estimulou sua leitura. Daí, é muito provável que alguém que tenha lido a bíblia antes da década de 1970, mesmo católico, leu a edição revista e corrigida, que fala em sino. Eu não sei se o próprio João Ferreira de Almeida, que era um português protestante em pleno século XVII ("peça rara"), escreveu "címbalo" ou "sino". Eu realmente gostaria de saber, mas nunca tive acesso a uma tradução de Almeida mais antiga. Contudo, talvez a edição revista e corrigida seja mais fiel à tradução original de Almeida, pois é mais antiga, e é bem diferente da edição revista e atualizada no Brasil, que a modificou.

Por curiosidade, consultei outras bíblias que tenho em casa. Tenho uma edição de 1988 de "La Santa Biblia, antigua versión de Casiodoro de Reina (1569) revisada por Cipriano de Valera (1602) y otras revisiones: 1862, 1909 y 1960", cujo texto é "...címbalo que retiñe". Outra edição que tenho, "La Sacra Bibbia, versione riveduta" (uma bíblia protestante em italiano, publicada, naturalmente, pela Sociedade Bíblica Britânica), que menciona "...uno squillante cembalo". Já a famosa "King James Version", que muitos protestantes anglófonos consideram a única bíblia digna de ser lida dentro das igrejas (as demais traduções são obra conjunta do Papa e do Capeta), traz "... a tinkling cymbal".

Um abraço,

Humberto Quaglio


Meu caro Quaglio,

estou consultando a tradução de João Ferreira de Almeida. Nela não há sinos. E nem poderia haver. Não havia sinos na época de Cristo.