¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, novembro 10, 2007
 
CARDEAL VÊ CEMITÉRIOS
COMO REPUGNANTES




Tenho um apreço especial por cemitérios. Não vai nisto nada de necrofilia, como já pretenderam alguns de meus leitores. Gosto do silêncio e da paz que neles impera, da arquitetura dos túmulos e de observar as vaidades póstumas que os túmulos traduzem. Além do mais, é uma geografia oportuna para se meditar sobre a fugacidade da vida.

Um dos cemitérios mais lindos que vi em minha vida foi o de Salzburg, totalmente integrado ao centro da cidade, sem muro algum, ao lado de bares, lojas e residências. Um outro foi em Oslo, ou talvez Helsinki, já não lembro. Eu passeava por um bosque e as tumbas - certamente protestantes, já que eram placas rasas de mármore, nada de mausoléus - foram surgindo aos poucos, uma aqui, outra acolá. Sem perceber, de repente encontrei-me em pleno campo-santo. Atravessei-o e as tumbas começaram a rarear, devolvendo ao bosque sua natureza de bosque.

Nos países nórdicos, os hiperbóreos encontraram uma fórmula que torna trivial e afável o convívio com a morte. Os cemitérios em geral estão em torno às igrejas. Em sueco, kyrkogården. Ou seja, o jardim da igreja. A cada vez que o crente vai fazer suas preces ou cumprir seus cultos, aproveita e faz um aceno aos que lhe antecederam na grande viagem. É o mesmo cumprimento que faço todos os dias à minha Baixinha adorada. Suas cinzas, joguei-as no jardim de meu prédio. Assim, todos os dias, ao voltar e sair de casa, passo por ela. Ou melhor, entre ela.

Existiriam religiões se o homem fosse imortal? Diria que não. Toda religião decorre do medo da morte e do desconhecido. Todos os três monoteísmos abrâmicos acenam com uma vida post mortem. No cristianismo, todos os homens serão ressuscitados e, conforme seus méritos, merecerão as delícias do paraíso e o encontro com o Senhor, ou o sofrimento eterno no inferno. Para Maimônides, "a recompensa máxima é o mundo futuro e a punição máxima é a extinção". Para Ibn Khaldun, Deus determina o destino de cada coisa criada. "Ele causa nossa ressurreição depois da morte. Esse constitui o toque final no cuidado de Deus pela primeira criação. Se as coisas criadas estivessem destinadas a desaparecer completamente, a sua criação teria sido inútil. Estão destinadas à existência eterna após a morte". Sacerdotes, profetas e criadores de religiões são extremamente hábeis na manipulação dos medos humanos. E o medo maior é a morte.

Leio no Estadão de hoje artigo de Dom Odilo Pedro Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo e secretário-geral da CNBB, sobre "O drama da morte e o sentido da vida". Dom Odilo é aquele purpurado que deposita confiança integral na lisura do padre Lancellotti, sacerdote que tem mentido descaradamente à imprensa e às autoridades ao defender-se das acusações de pedofilia e desvio de dinheiro destinado a ONGs. (Não é o cronista quem afirma isto. É o próprio padre com suas declarações que mudam de um dia para outro). Enfim, isto não importa no momento. Em seu artigo, o príncipe da Igreja fala do Dia de Finados e, ao referir-se a cemitérios, diz existir "uma estranha atração por esse lugar, que tem, ao mesmo tempo, algo de repugnante e de familiar". O prelado católico lembrou-me os leitores que me julgam necrófilo por gostar de passear entre tumbas.

Sem acreditar em justiças futuras nem em tribunais do Além, considero a morte uma instância natural da vida. Dói em quem fica, é verdade. Mas, salvo se não partirmos antes de nossos amados, todos temos de enfrentar estas instâncias e dores. Assim sendo, me surpreende ver um homem cujo ofício depende fundamentalmente da morte considerar repugnante a geografia onde jazem os que partiram. Confesso jamais ter ouvido, nem de crentes nem de ateus, referência tão pejorativa a um lugar que sempre nos evoca ternura, saudades e reverência pelos que nos antecederam.

"Muitos já tentaram explicar a morte" – escreve o cardeal –. "Os povos, com suas culturas, filosofias e religiões, em todos os tempos, tentaram entender a morte e sugeriram atitudes coerentes para enfrentá-la. Também a ciência dá sua explicação. Porém o mistério permanece". Ora, não há mistério algum na morte. Não há nada a explicar sobre a morte.

Tudo que respira morre. Faz parte da vida. Confere mistério à morte esta infame estirpe de sacerdotes, que faz da morte seu ganha-pão. Quando levei o corpo de minha Baixinha à capela do crematório, um Cristo meio pelado dominava uma das paredes do recinto. "Tirem isso imediatamente daí" – ordenei. Só o que faltava minha amada, em seu momento final, fazer propaganda dos mercadores da morte.

Se a morte é o encontro com Deus, todo cristão deveria correr alegremente ao encontro da morte. Quem elucidou bem esta questão foi Albert Camus, em A Peste. O padre Paneloux faz uma longa exposição sobre os flagelos que acometeram os homens por vontade divina. Como o Cristo, ele aceita passivamente o Mal, sem mesmo se interrogar sobre as eventuais motivações da divindade. Se o Cristo, em um momento de sua agonia, deixa escapar o "lamma sabachtani", Paneloux morrerá sem uma só palavra nos lábios.

"Há muito tempo, os cristãos da Abissínia viam na peste um meio eficaz, de origem divina, de se obter a eternidade. Aqueles que não haviam sido atingidos se enrolavam nos lençóis dos pestíferos para terem a certeza da morte. Sem dúvida, este desejo furioso de saúde não é recomendável, pois denota uma deplorável precipitação, bem próxima do orgulho. Não se deve ser mais apressado do que Deus. Tudo o que pretende acelerar a ordem imutável, estabelecida de uma vez por todas, conduz à heresia. Mas este exemplo, pelo menos, traz sua lição. Para nossos espíritos mais clarividentes, faz luzir este brilho delicado de eternidade que jaz no fundo de todo sofrimento. Esta luz ilumina os caminhos crepusculares que conduzem à libertação. Ela manifesta a vontade divina que, sem falhar, transforma o mal em bem".

Ocorre que hoje não se fazem mais cristãos como os da Abissínia. Quando Jesus está chamando, até o papa recorre à medicina de ponta. Ora, quando alguém morre, a reação coerente de um católico seria dizer: graças a Deus!

"A antropologia cristã traz ensinamentos luminosos para compreender essa realidade extrema: Deus é o 'amigo da vida' – continua o cardeal – "que não deseja a morte eterna para suas criaturas. O ser humano é feito para a vida, e não para a morte, que não terá a última palavra sobre sua existência". Ora, ainda há pouco eu escrevia sobre as multidões que o Deus do cardeal mandou massacrar. Não vou repetir. Que mais não seja, basta olhar a Bíblia. Não há nenhum outro deus no mundo que tenha mandado matar tanta gente. Dom Odilo, como também o Bento, precisar reler as Santas Escrituras e parar de enganar as gentes com esse papo de amigo da vida. Se o tal de deus não desejasse a morte eterna para suas criaturas, a Igreja não teria criado o inferno.

Dom Odilo fecha seu artigo com a fanfarronada de Paulo: "A visita ao cemitério, por isso, também é uma ocasião para proclamar, com São Paulo: 'Onde está, ó morte, a tua vitória?' (1 Cor. 15, 55). Nas orações que fazem e, sobretudo na celebração da Eucaristia, os cristãos anunciam a morte de Jesus Cristo, proclamam sua ressurreição e manifestam sua firme esperança de participar um dia, com Ele, na vida eterna".

De minha parte, não tenho vocação alguma para herói e tampouco maiores preocupações com o que possa acontecer com a humanidade. Não vejo, no entanto, maiores virtudes em morrer pela humanidade sabendo que vou ressuscitar três dias depois. Assim é fácil, acho que até eu daria uma de Salvador.