¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, novembro 18, 2007
 
CATALÃO LOUVA CIDADE ARRASADA



Porto Alegre é uma cidade que, bem ou mal, faz parte de minha vida. Não vivi muito tempo lá, como aliás nunca vivi muito em cidade alguma. São Paulo é a cidade onde estou ancorado há mais tempo, isto é, há 17 anos, e isto não faz sequer um terço de minha existência. Se conto nos dedos das duas mãos os anos que vivi em Porto Alegre, sobra um ou talvez dois dedos. Mas foi um período decisivo de minha vida. Lá fiz meu curso de Filosofia. Para concluir, é verdade, que a filosofia não leva a nada, mas isso já é uma conclusão importante. Mas não posso queixar-me. Foi na universidade que encontrei minha Baixinha, a mulher de toda minha vida, e só isso para mim justifica toda a História da Filosofia, desde os pré-socráticos até Sartre ou Heidegger.

Foi em Porto Alegre que tive meus primeiros embates intelectuais, foi lá que optei pelo jornalismo, é lá que ainda está boa parte de minha base afetiva. Assim sendo, pelo menos uma vez por ano, eu a visito. Não pelo seu famoso pôr-de-sol, tampouco por sua geografia ou gastronomia, muito menos por suas ruas e prédios. Visito Porto Alegre para rever os meus. No dia em que o tempo levá-los, não terei mais razão alguma para visitar a cidade.

A cada visita, sinto vontade de chorar. O centro sempre foi meu habitat, em qualquer cidade que tenha vivido. Cheguei em 65 na capital gaúcha, quando a decadência do centro histórico mostrava seus primeiros sinais. Na Rua da Praia, passarela da cidade, havia um único restaurante, o Oásis. Tinha ainda duas livrarias, que hoje não existem, a então poderosa Globo e a Kosmos. Lá pelas quatro ou cinco da tarde, a rua tomava um ar surrealista. No leito da rua, os homens se postavam para conversar e paquerar as gaúchas, que se enfeitavam com suas melhores prendas para desfilar naquela passarela informal. Mas os bancos já começavam a invadir o centro da capital. Ao lado da Praça da Alfândega, um quarteirão todo que antes abrigara cafés e cinemas, foi totalmente tomado por agências bancárias. E a metástase foi se espalhando pelas demais ruas.

Lá por 76 ou 77, escrevi uma crônica, "Bancos matam ruas". Nela, eu mostrava que, com o potencial de compra de um banco, que pode pagar o que pedirem pelo metro quadrado, não sobrava mais espaço para cafés, bares, casas de chá ou cinemas. Ora, bancos fecham às seis da tarde. Um quarteirão de bancos, quando cai a noite, torna-se um deserto sinistro, propício à cultura do crime e da bandidagem. Não é preciso ser urbanista para constatar isto. Colegas de jornalismo me olhavam como a um insano. "Estás louco. Queres expulsar os bancos do centro da cidade?"

A verdade é que a idéia sequer me ocorrera. Eu fizera apenas um diagnóstico. Mas ocorreu a um vereador que, com minha crônica em punho, propôs projeto de lei proibindo a instalação de bancos nos andares térreos do centro. Já era tarde. A Rua da Praia estava morta. O resto do centro seguia pelo mesmo caminho. Os bancos encontraram uma fórmula para burlar a postura municipal. Compravam prédios antigos, deixavam o térreo vazio e instalavam-se no mezanino. O centro, com suas belas edificações, como o prédio dos Correios, da Alfândega, do então Banco do Comércio, do Correio do Povo, do Theatro São Pedro, começava a morrer.

Aí surgiu um prefeito, Paulo Thompson Flores, que ergueu viadutos e muros por todos os lados, transformando uma arquitetura amena em uma floresta brutal de concreto. Fez mais. Separou o porto de sua cidade, com um muro absurdo, também de concreto. A única solução viável para desmanchar o estrago seria destruir o muro. Mas prefeito algum teve até hoje esta coragem.

Surgiu então o PT, as sedizentes administrações populares e o tal de orçamento participativo. O que restara de agradável no centro morreu de vez. O centro hoje é um bazar árabe, totalmente tomado pelos camelôs e traficantes. A Marechal Floriano, transversal da Rua da Praia, é o império do crack. Quando começa a anoitecer, os transeuntes começam a fugir apressados da região. Tenho amigos que fugiram definitivamente do centro para outros bairros. E outros que ainda vivem no centro, mas evitam por lá transitar, mesmo de dia. O centro de Porto Alegre hoje, tomado pelo crime, contrabando e pirataria, é um dos centros urbanos mais imundos e deploráveis do país. As cidades mais feias que conheci em minha vida foram o Cairo e Nápoles. Hoje, ponho Porto Alegre na lista. Se alguém quiser uma fórmula sobre como enfear e destruir uma cidade, debruce-se sobre a capital gaúcha e suas últimas administrações.

Por estas e por outras, muito me espanta a avaliação do catalão Josep Maria Montaner, tido como um dos principais críticos de arquitetura do mundo, que fez palestra no sábado passado em São Paulo, na 7ª Bienal Internacional de Arquitetura. Diz Montaner sobre Porto Alegre:

- São emblemáticas a cidade moderna de Brasília e o modelo participativo de Porto Alegre. Esta é uma cidade que vem melhorando paulatinamente, desde seu centro histórico e seu porto até a nova Fundação Iberê Camargo, passando pelo Gasômetro e por toda a margem verde do rio.

A sumidade catalã fez a louvação de duas das piores cidades que o Brasil hoje abriga. Pessoalmente, acho que preferia morar em Nápoles, que abomino, a morar em Brasília. É cidade estúpida desde sua concepção. Não é por ser planejada. Madri é também capital planejada e é hoje uma das cidades mais charmosas do mundo. Ocorre que Brasília foi concebida a partir do modelo urbanístico soviético stalinista. Como, na época, tudo o que os comunistas faziam virava mito, Brasília foi em prosa e verso cantada. Estive lá duas vezes e nunca mais lá voltarei. Aquilo não é habitat para seres humanos.

Quanto a Porto Alegre, este senhor tem a coragem de afirmar que a cidade vem melhorando paulatinamente. Quando a cidade está, salvo alguns bairros que se desenvolveram ultimamente, cada vez mais degradada. Em Ipanema, bairro nobre, existe até um morro ocupado por índios caigangues – que são de Santa Catarina – e pretendem que lá, em Ipanema, estão suas terras imemoriais. E ninguém consegue expulsar os bugres. Quanto ao centro histórico, dispenso comentários. Dá asco.

Quanto à fundação Iberê Camargo, é um dos monumentos mais horrendos que a imaginação humana conseguiu um dia conceber. Suponho que este senhor Montaner é mais um destes ativistas de esquerda e quis, no fundo, fazer uma homenagem às administrações "populares" que aceleraram a decadência de Porto Alegre. Só pode ser isto. Porque pessoa alguma, em seu são juízo, pode afirmar que uma cidade arrasada como a capital gaúcha vem melhorando paulatinamente.