¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, novembro 04, 2007
 
CERVANTES VIVE



No prólogo a Novelas Ejemplares, Cervantes lamenta seus dentes, ni menudos ni crecidos, porque no tiene sino seis y esos mal acondicionados y peor puestos, porque no tienen correspondencia los unos con los otros. Também glorifica sua mão perdida em Lepanto, herida que, aunque parece fea, él la tiene por hermosa, por haberla cobrado en la más memorable y alta ocasión que vieron los passados siglos ni esperan ver nos venideros. Ali está o homem, mutilado pela vida mas inteiro e orgulhoso de seus feitos. Mais tarde, ciente da grandeza de sua obra, Cervantes dirá de Cervantes:

tú, que en la naval dura palestra
perdiste el movimiento de la mano
izquierda, para gloria de la diestra!


A palavra palestra, aqui, tem o sentido original grego: luta, batalha. Raros são os gênios que ousam reconhecer publicamente seu gênio, e Cervantes foi um deles. (Dois outros foram Fernando Pessoa e Swift).

Carlos Fuentes é um reputado escritor mexicano, autor de longa obra, muitas vezes indicado para o Nobel. Sua pedra de toque é Cervantes e certa vez o vi declarar que não consegue passar um dia sem ler uma página do Quijote. Assim sendo, muito me espanta ouvir dele esta bobagem, publicada hoje em sua entrevista ao Estado de São Paulo:

- O leitor sobrevive ao autor. Quando o escritor morre, o leitor continua. Cervantes já se foi, mas seus leitores continuam adorando sua obra. E eles nascem a cada dia.

Ora, Cervantes não se foi nem nunca se irá. Quem partirá somos nós, seus leitores. Sim, os leitores nascem a cada dia. Mas também morrem a cada dia. Cervantes não morre. Muito menos o Quixote.