¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, novembro 07, 2007
 
Crônicas da Guerra Fria (30)


BRONZEAR-SE EM BERLIM



Paris - As revoluções normalmente têm uma data, seja ano, mês ou dia, data sempre determinada a posteriori, pois nunca se sabe quando uma guerra ou revolução está começando. Foi o que aconteceu com esta que, cidadãos do final do milênio, estamos assistindo. A fins de outubro passado, ninguém ousaria imaginar o que ocorreria na semana seguinte. Aqui em Paris, pelo menos, o evento já foi batizado: Revolução do Nove de Novembro, data emblemática e por cima de tudo aliterante, para que não seja esquecida. Derrubado o muro, desmorona também o sistema que empestou sete décadas deste século.

Confusos ante os acontecimentos, em janeiro passado, reuniram-se na Sorbonne dezoito intelectuais parisienses, no que foi pomposamente intitulado "Le Grand Coloque de la Liberté". Colóquio que seria honroso se fosse anterior ao Nove de Novembro. Posterior sendo, tem um certo ar de oportunismo e mea culpa. Deste confiteor coletivo, excluamos Hélène Carrère d’Encausse, que há mais de década previu a explosão do império russo em função do avanço muçulmano. Os demais, Leszek Kolakowski, Cornélius Castoriadis, K. S, Karol e Alain Tourraine, entre outros, correm atrás do trem perdido.

Para Carrère d’Encausse, autora de L’Empire eclaté - livro que foi amaldiçoado pelos franceses com o "coração à esquerda", pois antecipava há mais de dez ano o que hoje está ocorrendo nas repúblicas muçulmanas - o comunismo foi, em 1917, a resposta de Lênin a uma velha questão: onde está a Rússia? Na Europa ou fora dela?

"Incapaz de optar, Lênin tomou uma decisão singular: a Rússia era, ela sozinha, o futuro da Europa. O comunismo foi o manto de Noé de um império de tzares reconstituído e mantido na esperança de que um dia as diferenças nacionais desapareceriam. O fim do comunismo põe a nu o problema da relação entre os povos e da escolha a fazer entre uma Rússia que se restringiria a seus limites ou um império que seria preciso manter, a não importa qual preço. Manter o império é afastar-se da Europa e frear a democracia. A escolha desta segunda via abriria, é claro, um processo longo e doloroso: seria o abandono de uma longa história de conquista. Isto, a Rússia tem dificuldade para aceitar. Mesmo se uma facção da intelligentsia encara a questão com lucidez e espera que os dirigentes soviéticos saberão facilitar um abandono do império que teria por resultado a democratização e europeização da Rússia".

Explodido - ou implodido, como quisermos - o império russo, a utopia em bancarrota, poderia a religião ocupar o vazio ideológico criado pelo naufrágio do dogma marxista-leninista? Para Leszek Kolakowski, o marxismo-leninismo (grande novidade!) era uma paródia de religião, ou seja, uma ideologia global que pretendia resolver todos os problemas metafísicos, históricos, filosóficos e sociais.

"Mas, ao contrário das religiões, ele se pretendia uma teoria científica. Hoje, não acredito que a religião possa tomar o lugar de uma ideologia global, salvo sob sua forma medieval, isto é, nos países islâmicos fundamentalistas onde religião engloba tudo, dá resposta a tudo. A religião cristã, inclusive sob sua forma oriental, não poderá, a meu ver, assumir novamente este papel".

Ou seja: no fundo, o que Kolakowski deixa transparecer é que religião, nos dias de hoje, só serve para países pobres e populações analfabetas. Assino embaixo. Bernard Henri Lévy já não é tão otimista:

"A questão não é de saber se a religião terá algum papel no futuro. Hoje, nas sociedades pós-totalitárias contemporâneas, ela já tem este papel. Em Moscou, restauram-se monumentos históricos, reabrem-se igrejas. Em suma, a Igreja está no centro do debate político e ideológico russo".

Para Adam Michnick, outro participante do debate, há duas formas de renascimento religioso:

"No cemitério das ilusões do bolchevismo, assistimos o retorno aos valores morais do cristianismo, os valores absolutos. Sem este renascimento da consciência do valor absoluto, a vida no pós-comunismo totalitário seria impossível. Mas o renascimento religioso pode também ser a fascinação pela força da Igreja como instituição".

Ou seja, assim como todos os mercadores europeus, João Paulo deve estar de olho no tentador mercado dos milhões de crentes órfãos de Marx. Deus sucederá Lênin? - pergunta-se o Nouvel Observateur. É possível. E o mundo socialista terá saído do barro para cair na merda.

Mas a Revolução do Nove de Novembro - do ano passado, bem entendido - já parece pertencer a um século distante. A imprensa francesa já saúda a Revolução de Fevereiro - de fevereiro deste ano, é bom salientar. Gorbachov montou num tigre, como diz um provérbio oriental, e quem monta em tigre dele jamais desmonta. A perestroika, desde sua gestação, tinha endereço, mais que certo, necessário: o fim da preponderância do Partido Comunista Russo na gestão do poder.

As ex-colônias russas entenderam logo o recado. Alemanha Ocidental, Polônia, Tchecoeslováquia, Bulgária e - aos trancos e barrancos - a Romênia, estão jogando os comunossauros na lata de lixo da História. Faltava a Rússia. E não é que o camarada Gorby propõe nada mais nada menos que o fim do monopólio do PC? O que significa que não mais existirá o Partido Comunista e sim um partido comunista, se é que na Nomenklatura vai sobrar alguém com coragem suficiente para apagar a luz do museu.

"O Partido não pode existir" - diz Gorbachov em seu discurso de abertura do 28º Congresso do PCUS - "e cumprir seu papel de vanguarda se não for uma força democraticamente reconhecida. Isto que dizer que sua posição não deve ser imposta através de uma legalização pela Constituição".

Em outras palavras, os russos parecem estar descobrindo a democracia burguesa que Lênin e Stalin tanto odiavam. A proposição de Gorbachov, vitoriosa no plenum do PCUS, significa simplesmente a instituição no império desta coisinha elementar tão rotineira no Brasil: o pluripartidarismo. Castro já deve estar de barbas de molho, afinal a Constituição cubana evoca, em seus preâmbulos, a proteção da URSS, assim como a nossa evoca a proteção de Deus, jaculatória que, dada nossa taxa de inflação, só serve para desmoralizá-Lo. Que fará Castro quando secar sua fonte de misticismo? Enfim, Castro pouco ou nada tem a fazer, a não ser abandonar sua ilha particular e o osso do poder. A pergunta crucial é outra: que farão os paranóicos latinos quando for evidenciado o horror da última utopia desvairada do Ocidente?

Sei lá! Já começo a ouvir explicações. Cartazes em Paris dizem que tudo foi traição, que o socialismo não estava lá, mas mais adiante. Quanto a mim, vou a Berlim. Para bronzear-me. Ora, direis leitores, na Europa é inverno e sol só se encontra nas agências de publicidade. Mas, como insinua o Nouvel Observateur, o sol da liberdade também bronzeia.


(Porto Alegre, RS, 10.03.90)