¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, novembro 13, 2007
 
Crônicas da Guerra Fria (36)


SOBRE VIRGENS E IXIPTLAS



Curitiba - Mas então a gente não termina nunca de contar? - quis saber outro dia minha filha. Contente ao ver que já roçava o conceito de infinito, disse que sim, os números começam e não terminam nunca mais. Para ela, em sua insciência, até o infinito já tinha limitações:

- Quem sabe, só Deus sabe contar até o fim.

A pivete mal sabe contar até cem. Mas Roma já está fazendo seu trabalho.

Deus? Mas quem é esse cara? - perguntei. Qual é o jeitão dele? Ah! Ele é barbudo. Assim que nem eu? Mais ainda, e a barba é branca, muito mais branca que a tua. Onde é que ele mora? Lá em cima. Ali, no teto? Não, depois do teto. Mas depois do teto só tem nuvens, e lá não estou vendo nenhum barbudo. Ah! Mas ele não pode ser visto. Se não pode ser visto, como é que sabem que ele é barbudo? Ela pôs um dedinho na boca e desistiu de argumentar. Acho que ganhei a parada: consegui ativar a lógica implacável das crianças.

Estávamos em um bar, ela chupando um desses abomináveis xaropes ianques vendidos pela televisão, eu degustando minha cerveja, que mais não seja pelo menos ela aprende a segurar um copo e familiarizar-se com garçons. Quem te falou desse cara? - eu quis saber. A professora, diz Isa. E isso que Isa é pagã e estuda em escola laica. Deus tem telefone? - perguntei. Acho que não. Bom, se tiver, pergunta pra tua professora qual é o número, pergunta também pra ela se ele gosta de coca ou cerveja, e depois convidamos ele pra tomar um trago com a gente.

Creio tê-la confundido, o que aliás era meu propósito. As crianças mal sabem ler ou contar e já estão contaminadas, mesmo em escolas laicas, pela imagem antropomórfica do deus judaico-cristão. Atrás da imagem do deus barbudo, o pacotaço teológico: medo ao pai, medo à autoridade, o sexo visto como pecado, o prazer como fonte de culpa. Já nos primeiros anos, a escola semeia a neurose no inconsciente infantil, para alegria futura dos ditadores, gurus e psicanalhas. Se Deus é barbudo e mora acima das nuvens, ó Isa, quando chove ele está fazendo xixi? E quando troveja, cocô? Pedagogas, por favor: não infiltrem em um cérebro ainda informe a idéia de um deus pai, patriarca e castrador. Alfabetizem-se, antes de pretender alfabetizar.

Imagens. Disto os conquistadores europeus entendiam - desde os dias da Descoberta até nossa era televisiva - e até hoje a elas permanecemos submetidos. "Pois a imagem constitui com a escritura" - escreve Serge Gruzinski - "um dos instrumentos maiores da cultura européia. O gigantesco empreendimento de ocidentalização que se abateu sobre o continente americano assumiu a forma de uma guerra de imagens que se perpetua desde séculos, e nada indica que hoje esteja encerrada". Aposto que, depois do deus barbudo, minha filha virá torrar-me a paciência (a coitada não tem culpa) com a Virgem Maria. E atrás da Virgem outro pacotaço papista: virgindade, amor, monogamia, casamento, reprodução e o começo do ciclo todo. Desde Colombo até hoje, os conquistadores sabem muito bem que, ao impor o mito de uma mãe virgem a culturas pagãs, já ganharam a batalha. O papa que o diga.

João Paulo II foi ao México, não para degustar tequila ou ouvir mariachis, e sim para beatificar Juan Diego, o índio em cuja túnica as rosas teriam deixado gravada a imagem da Virgem de Tepeyac, mais conhecida como Virgem de Guadalupe, não por acaso a mesma venerada nas montanhas de Estremadura, e muito querida pelos conquistadores. João Paulo, padre astuto, intuindo que a tal de teologia de libertação está em franca decadência com o desmoronamento do fascismo eslavo, investe no mistério. E confere odor de santidade ao coitado do íncola manipulado pelo barroco europeu.

Tudo começa nos anos 1550, quando na colina de Tepeyac os indígenas mexicanos prestavam culto a um ixiptla, ou seja, estátua ou imagem de uma deidade que, na linguagem dos conquistadores, é traduzida como ídolo. O ixiptla, no caso, é o da deusa Toci-Tonantzin, nome que, traduzido do náuatle, dá - maravilhosa coincidência! - Nossa Mãe. Alonso de Montufar, arcebispo do vice-reino, não vai perder esta oportunidade - como direi? - divina, de sobrepor, como sempre fez a Igreja romana, aos símbolos e cultos pagãos, a tralha católica. Encomenda a Marcos, um pintor indígena, uma obra inspirada em um modelo europeu e a coloca ao lado do ixiptla asteca, gesto aparentemente inocente se visto daqueles dias, mas carregado de conseqüências quando o olhamos com o distanciamento de quatro séculos.

Pelo período de aproximadamente um século, a imagem da Virgem permanece, sem trocadilhos, em banho-maria, sem que se fale de epifanias ou milagres. Em 1648, com a publicação de Imagen de la Virgen Madre de Diós de Guadalupe, do padre Miguel Sánchez, o culto mariano toma novo impulso. "Segundo esta versão destinada a tornar-se canônica" - escreve Gruzinski, em La Guerre des images - a Virgem teria aparecido três vezes em 1531 a um índio chamado Juan Diego. Segundo Juan de Zumárraga, primeiro bispo e arcebispo do México, Juan Diego abriu sua capa sob os olhos do prelado: "em lugar das rosas que ela envolvia, o índio descobriu uma imagem da Virgem, miraculosamente impressa, até hoje conservada, guardada e venerada no santuário de Guadalupe".

Mas nada surge do nada, muito menos imagens. Antes da publicação do livro de Miguel Sánchez, que oficializa a versão das rosas imprimindo os traços da Virgem na capa de Juan Diego, haviam chegado ao México pelo menos duas levas de pintores e arquitetos, profundamente influenciados pela escola flamenga. Colocando seus talentos a serviço da Igreja, estes artistas transportam ao novo continente o imaginário europeu. Vasto é o mercado. Para Gruzinski, a clientela dos artistas cresce e se diversifica: "A corte, a igreja, as autoridades municipais, a universidade, a Inquisição, as confrarias e os ricos entregam-se a uma concorrência cada vez mais viva e rivalizam em encomendas que afirmam publicamente, aqui como alhures, poder, prestígio e influência social. Eis então reunidos todos os meios de uma predileção pela imagem e de uma produção em larga escala, conforme o gosto europeu, impulsionada pela Igreja, posta sob a vigilância da Inquisição e de prelados de zelo por vezes intempestivo".

Faltava apenas o ingênuo para descobrir, sob as rosas, a imagem da Virgem. Como seria pouco convincente apresentar uma imagem sendo descoberta por seus criadores, foi escolhido Juan Diego, hoje alçado à condição de beato pela igreja que destruiu seus ixiptlas e sua cultura. E assim, como quem não quer nada, semeando marias mundo afora, vai o Vaticano alastrando seus domínios.

A última é a de Medjugorje, na Iugoslávia, ainda não reconhecida pela Igreja. Mas como débil é a memória das gentes, mesmo nestes dias de cultura impressa, não é de se duvidar que dentro de alguns séculos esteja sendo canonizado algum discípulo do general Tito, para alegria das agências de turismo, que mesmo sem o reconhecimento papal lotam aviões para ver a virgem vermelha. Que, segundo me consta, se dispõe até mesmo a interceder junto ao Senhor pela entrada de Lula no Reino dos Céus. Mas o Collor, por mais missas que assista, de jeito nenhum, principalmente após aquele plano perverso que cortou as divisas de seu séquito de adoradores.

Ave, Regina!


(Porto Alegre, RS, 26.05.90. Joinville, A Notícia, 17.06.90)