¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, novembro 16, 2007
 
Crônicas da Guerra Fria (39)


IN MEMORIAM DEUTSCHMARX



Curitiba
- Saudades - escreve-me uma amiga berlinense. Mas a saudades não é de mim, e sim do muro. "Nostalgia generalizada. Depois da invasão alemã oriental faminta de consumo, poloneses, romenos, ciganos, vietnamitas do Leste. Roubalheira, especulação, conto do vigário, esmoleiros e bêbados em cada canto. Não podes imaginar a reviravolta que está acontecendo por aqui. Adeus dolce vita alternativa. Hoje fui realizar um velho desejo, visitar Berlim Oriental de bicicleta. Andei quase três horas e voltei deprimida com o aspecto da cidade. Meu Deus, não só as gentes são detestáveis no seu incrível provincianismo, também seu habitat é assustador. Ponto para ti, que deves estar feliz lendo estas linhas negras".

O ponto para mim, este eu aceito. Mas feliz não estou, a desgraça alheia é algo que jamais me alegrou. Minha amiga é marxista. Vive há mais de década na orgíaca capital de consumo que é Berlim ocidental, mas sempre louvou o outro lado. Com a queda do muro, do alto de sua bicicleta, parece estar descobrindo o horror que embasava suas convicções.

"É óbvio que os mitos sobre a URSS são interpretáveis tanto a partir do lugar onde nascem quanto a partir do país que produz sua substância", - escreve Marc Ferro, em O Ocidente diante da Revolução Soviética. "Por que, na França, por exemplo, acreditou-se em Soljenitsin em 1970, quando ele falou do terror na URSS de 1920 a 1950? Por que não se acreditou em Kerenski ou Volin, em Kravtchenko ou Koestler, embora eles dissessem a mesma coisa? É evidente que a resposta deve ser encontrada em Paris, em Berlim e Londres, e não somente na URSS".

A antiga Berlim ocidental foi certamente a capital mais marxista de toda a Europa. Situada no olho do furacão, atraiu, talvez até mesmo em maior intensidade do que Paris, as esquerdas de toda América Latina. Ostensiva vitrine do capitalismo, encravada em um oceano socialista, Berlim constituiu a ilha ideal para os defensores do fascismo eslavo. Sempre era possível defender o sistema circundante, sem precisar renunciar às delícias do sistema contestado, tais como carros de luxo, giros pelas ilhas do Egeu ou do Mediterrâneo, boa calefação, boa cerveja e bom vinho, isso sem falar dos demais requintes que a cidade oferece, de braços e pernas abertas, a seus amantes. Tal lascívia conseguiu chocar até mesmo aquele poetastro gordo, glutão, medíocre e stalinista, o Neruda, que julgava ter construído um poema apenas alinhando palavras na vertical:



Os pederastas dançam se abraçando

contra os técnicos do State Department

as lésbicas encontraram

seu paraíso protegido

e seu santo: Saint Ridway

Berlim ocidental; tu és a pústula

sobre o rosto antigo da Europa

as velhas raposas nazis

escorregam sobre as mucosidades

de tuas sujas ruas arqui-iluminadas

Coca-cola e anti-semitismo

correm abundantemente

sobre teus excrementos e tuas ruínas

Na cidade maldita

filha do crocodilo Truman...




Etcétera. Neruda depois abiscoitou o Nobel, para vergonha de todo poeta que se preze, mas se afinal Cholokhov o conseguiu com um plágio, O Don Silencioso, os braços da Real Academia Sueca permaneciam abertos aos vigaristas do século. Mas falava de Berlim.

Como a alma de todo marxista, Berlim permaneceu décadas dividida, e nisto reside seu caráter emblemático, de cidade-mártir de um século ensandecido por milenarismos. Tanto Neruda, gordo e glutão, como minha amiga berlinense, magra e ascética, adoram e ao mesmo tempo detestam a luxuriante vitrine do capitalismo ocidental. Neruda, para sua própria sorte, está morto e bem morto. Não precisa mais responder pela tirania que lhe rendeu dólares e prestígio. Quanto à minha missivista... Bem, alguém terá de reformular conceitos, e este alguém não sou eu.

Quando adolescente e contaminado por idéias obsoletas, sempre detestei o consumo e as sociedades de consumo. Impregnado pelo obscurantismo católico, a meu ver todo comércio era crime e todo comerciante um ladrão. Mas a vida, para bom entendedor, é uma caminhada rumo à lucidez. Hoje estou convicto de que o comércio é a base mais saudável da paz entre os povos.

Um consumista inveterado - já deve estar pensando o leitor fanático de Neruda. Nada disso. Meu consumo se resume a comprar livros, curtir bom cinema, sentar em bares propícios ao recolhimento, ler jornais, beber e conversar. Certos museus também me atraem. Por exemplo, o Berlin Musée. Até hoje não sei bem o que ele abriga, parece que umas locomotivas antigas. Mas após aquelas tralhas, há um bar magnífico, onde se toma uma vodca com figo, nata e pimenta, capaz de dobrar o mais radical inimigo de museus.

Enfim, falava de consumo. Por idiota que seja, acaba gerando empregos e riquezas. Nisto reside o fascínio de capitais como Berlim, Paris ou Madri. Para suprir as demandas do consumo, seja uma peça de lingerie, uma caneta mais sofisticada, um computador ou Mercedes Benz, centenas de milhares de cidadãos têm emprego e salários garantidos. Jamais participei desta orgia consumista. Mas constatei que, nas sociedades onde existe, as pessoas vivem bem. Se me sobra salário no fim do mês, estou livre tanto para opções burras como inteligentes e qualquer uma delas gera riqueza e distribuição de renda. Assim sendo, com a isenção de ânimo de quem detesta entrar em lojas, louvo a nova Berlim que nasce dos escombros da barbárie. Verdade que os intelectuais de esquerda refugiados nos Kneipen da Kudam ou do Kreutzberg terão agora de disputar seu espaço vital com os famintos de consumo do Leste. Dialética tem dessas coisas.

O caráter ficcional do bem-estar de uma economia sempre acaba se revelando na saúde de sua moeda. Brasileiros, há muito sabemos disso. Conscientes do valor simbólico da moeda ou do papel-moeda, a Alemanha ocidental sempre cuidou de oferecer a seus cidadãos cédulas estalando de novinhas. Mal um bilhete começava a ficar sujo ou amarrotado, era queimado e substituído por papel novo. O Deutschmark jamais sujou as mãos de seus portadores e sempre teve livre curso no mundo todo. Já o Deutschmarx, como foi apelidado o marco oriental, além de não comprar nada fora das fronteiras da ditadura, era tão ou mais imundo quanto cruzados ou cruzeiros.

Ao raiar do mês de julho, como conseqüência da revolução do Nove de Novembro e selando a reunificação alemã, toneladas de marcos ocidentais foram transportados à parte enferma da nação para substituir a cédula inútil. "Milhões de pessoas terão pela primeira vez nas mãos uma moeda realmente forte" - disse Helmut Kohl -. "Elas não vão iniciar uma discussão teórica ou filosófica sobre a unificação alemã. Provavelmente, o marido dirá á mulher: vamos até Paris. E eles passearão pelos Champs Elysées e se sentirão no centro do mundo".

Para não poluir ainda mais a já poluída geografia da Alemanha oriental, a falecida moeda será sepultada em minas de sal e urânio. Junto com as cédulas de cem, jazem as efígies de Marx e Engels. Se daqui a um século, um arqueólogo ou espeleólogo deparar-se com aquelas toneladas de dinheiro sujo, constatará com ironia, que Lênin tinha razão: para destruir um regime, basta desmoralizar sua moeda.


(Porto Alegre, RS, 14.07.90)