¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, novembro 18, 2007
 
Crônicas da Guerra Fria (41)


EU, SEM TERRA



Curitiba - Das coisas que fizeram as mãos de um homem do campo, poucas não terão feito as minhas. Arranquei chirca com picão, cortei aveia com foice, trabalhei em alambrados e rasguei a terra no rabo de um arado puxado por bois. Quinchar um rancho para mim não tem mistérios, muito menos carnear uma vaca ou ovelha. Meus primeiros trocados - questão de comprar bolinhas de gude ou rapaduras - ganhei-os juntando cordeiros mortos pela geada. Com sorte, cada manhã rendia uns cinco ou seis e depois era só negociar as peles no bolicho do Candoca. E mais: se algum gaúcho ainda sabe o que é mundéu, devo confessar que fui emérito caçador de perdizes. Sem tiros nem violência. Apenas uma forca onde o bichinho, talvez não muito espontaneamente, acaba entrando.

Minha infância, eu a vivi em uma época que antecede o trator. Tratores já existiam, é verdade, mas descendo de uma raça de camponeses teimosos - ou suicidas, como quisermos - que preferiam ir morrendo lentamente, tomando chimarrão sob a copa cúmplice de um cinamomo, do que entregar-se às tentações da modernidade. Sou da época do radinho de pilhas e mais ainda: poderia afirmar que sou de antes do rádio. Só fui conhecê-lo lá pelos seis ou sete anos, graças à iniciativa de um tio mais ousado, que sacrificou seu mais antigo eucalipto para instalar um catavento. Escutar rádio para mim sempre teve algo de mágico, e meu tio girava o dial qual sacerdote erguendo uma hóstia.

Cidade é coisa que fui conhecer aos dez anos. Enfim, tudo isto é para dizer que, nestes dias em que se fala tanto nos tais de sem-terra, sem-terra mesmo sou eu. Fui expulso de minha geografia, um pouco pela pressão dos latifúndios circundantes, outro tanto pelas tentações da cidade. E, cá entre nós, graças a Deus - há horas em que viro místico! - que fui expulso. Nutro imenso carinho pelas sangas e cacimbas de minha infância, mas se nelas continuasse pescando ou bebendo, do mundo só teria visto o horizonte. A vida no campo é linda, dizia Sócrates, acontece que os amigos estão em Atenas.

Assim sendo, muito me surpreendem as manifestações dos ditos sem-terra, entre os quais os mais falantes são pessoas de mãos sem calos. Que as minhas não tenham calos é inteligível, abandonei meus pagos há cerca de trinta anos. Mas tampouco reivindico uma volta à terra. Em Portugal, lá pela época da finada Revolução dos Cravos, quando os intelectualóides do PCP desciam ao Algarve para conclamar os camponeses à luta (mas que luta?), os algarvios pediam apenas uma coisa: mostra as mãos, ó gajo! E ao ver que os salta-pocinhas lisboetas nas mãos não tinham calos, os mandavam de volta à capital, sob pena de experimentar nas fuças a mão de um homem que trabalha.

Em Paris, ainda neste ano, encontrei um colombiano que fazia uma tese sobre as lutas sociais na América Latina. Interrogou-me sobre os movimentos camponeses no Brasil, e não quis acreditar quando garanti que no Brasil não havia movimento camponês algum. Para começar, camponês é palavra dúbia. Homem algum do campo se define como camponês. Camponês é palavra inventada por aqueles que - lá no campo - nós chamávamos de "bundinhas da cidade". A denominação não é fortuita. O gaúcho, dentro de suas bombachas, esconde as ancas. O bicho urbano, com sua calça corrida, exibe mais suas convexidades. Mas falava dos ditos movimentos camponeses.

Ora, o homem do campo, o peão, jamais teve senso algum de organização. O que existe no Brasil, afirmei, é uma massa de pobres coitados manipulados pela dita ala progressista da igreja Católica e pelas viúvas de Stalin, os integrantes do autodenominado Partido dos Trabalhadores. Este filme tem um gosto insosso de déjà-vu, e efetivamente já o vimos na China e na Rússia, para dar no que deu: ditadura, opressão, miséria e fome.

O que me lembra versos do Aparício Silva Rillo, gaúcho da gema, quando canta a saga do João da Gaita:



Lá um dia percebeu
para o seu entendimento
de índio meio bagual,
que o que chamavam "ideal"
era apenas, bem pensando,
ambição pura de mando
dos chefões da capital,
daqueles que concitando
a gauchada ao combate
ficavam tomando mate
peleando só por jornal.



E nisto se resumiram as degolas de 93 a 23, revoluções que apenas sangraram o Rio Grande do Sul, sem que o sangue tivesse alguma paga. As atuais invasões de terra, feitas ao arrepio da lei e com logística de quem conhece guerrilha, parecem querer forçar as circunstâncias a mais um derramamento de sangue. Não é de espantar que tais movimentos sejam liderados por padres e bispos. Eles bebem sangue todas as manhãs - e, por favor, não ousem negá-lo! - e vai ver que querem sangue também no almoço e na janta.

De sangue, devo confessar que também gosto, mas suíno ou bovino e sob forma de morcilha ou guisado. O sangue ritual, aquele que os padres bebem, com ele jamais fui brindado. Os padres o reservavam a si próprios e me serviam um pão sem fermento e sem graça. O cara aquele, o Cristo, muitas vezes o comi, mas sem prazer algum. Mas falava de terras.

Terra, em minha geografia, conquistava-se com o trabalho, jamais com proseletismo. A loja brasileira da máfia romana, sentindo-se obsoleta e pouco convincente, em seu desespero apela aos pobres. Não para torná-los ricos, mas para nivelá-los por baixo, mantendo-os naquele nível de pobreza que sempre agradou ao poder. Fala-se em demitir 360 mil apaniguados no Brasil para moralizar o serviço público? Horror, arbítrio do poder. Mas os alemães orientais acabaram concluindo, a duras penas, que só com alguns milhões de desempregados pode se aspirar a uma economia sadia. Se não nos cuidarmos, após o fim de Castro, o Brasil será o último país socialista da América Latina.

Mas falava de quê? Ah, de terras. A meu pai, gaúcho daqueles que não se fazem mais, jamais ocorreria invadir a terra de alguém. Em contrapartida, jamais lhe ocorreria permitir que alguém invadisse suas poucas braças. Havia um alambrado que dividia seu território dos alheios, e ai daquele que o ultrapassasse sem seu convite. Herança talvez de 23, sob as camas havia um arsenal escondido. Fui criado manipulando mosquetes Mauser e Winchesters e creio que só agora, depois de adulto, consegui entender este sentimento visceral do homem da terra: em meu território, por menor que seja, ninguém põe as patas.

Na Hungria, leio nos jornais, está se começando a devolver a terra a seus antigos proprietários. No Brasil, tenta-se tirar a terra de seus proprietários. Se, por um lado, não há sentido algum em quadras e quadras de latifúndio improdutivo, tampouco há sentido algum em invadir geografias produtivas. Santa Catarina, por exemplo. Em um estado cuja distribuição fundiária é das mais coerentes e produtivas do país, não faltam agitprops defendendo a invasão de terras.

E as invasões estão virando seqüestros. Ser oficial de justiça no Brasil está começa a tornar-se tão arriscado quanto ser juiz na Colômbia. É curioso constatar que Dom José Gomes, que já foi bispo em Bagé, sem jamais ter dito um pio contra o latifúndio, agora se erija em líder dos tais de sem-terra nesta geografia bastante humana de Santa Catarina. Os príncipes da Igreja, em vez de envelhecerem com elegância, parecem ter aderido a esta demagogia barata, a aceitação de idéias aparentemente jovens, mas no fundo senis e obsoletas.

A todo jornalista que entrevista esta nova classe, permito-me sugerir duas análises, a das mãos e a do vocabulário. Se as mãos não têm calos e se o vocabulário é petóide - atenção! - o tal de sem-terra é camponês de mentirinha, e só posa como vítima em função de interesses das viúvas saudosas do finado Djugatchivili.


(Porto Alegre, RS, 11.09.90)