¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, novembro 21, 2007
 
Crônicas da Guerra Fria (44)

AO NOVE DE NOVEMBRO


Curitiba - Uma das boas lembranças que trouxe de meus dias de Suécia - exílio voluntário, é bom esclarecer - foi um romance de Karin Boye, Kalocain. A autora optou por fugir à vida há cinqüenta anos, e a ocasião é oportuna para rever sua obra, seu rosto lindo e seu sorriso terno. Em Estocolmo, estudei cinema e acho que não exagero se afirmo que Boye me fez optar pela literatura.

"Este livro que me proponho escrever parecerá sem sentido para muitos - se ao menos ouso pensar que muitos poderão lê-lo - pois iniciei-o espontaneamente, sem ordens de ninguém, e no entanto nem certamente eu mesmo sei qual é meu objetivo. Quero e preciso, isso é tudo. Pouco a pouco, inexoravelmente, acabamos nos perguntando pelo objetivo e método do que fazemos e dizemos, de modo que palavra alguma caia ao azar, mas o autor deste livro foi forçado a tomar o caminho oposto, em direção ao inútil".

Assim abre seu longo depoimento Leo Kall, o personagem central de Kalocain. Sempre fui fascinado pelas frases iniciais de uma obra de porte, e Boye capturou-me já no primeiro parágrafo. De volta a Pindorama, para não perder meu sueco, decidi traduzir o livro. Caminho em direção ao inútil, como diria Leo Kall. Por um desses estranhos caminhos, sei lá como, consegui publicá-lo no Rio, pela Companhia Editora Americana. O livro foi solenemente ignorado pela crítica, pois era um libelo contundente contra os milenarismos que empestaram o século.

Falar nisso, a Real Academia Sueca parece voltar a tomar vergonha. Após ter premiado celerados como Sholokov, Neruda e Garcia Márquez, passou a honrar homens íntegros com Cela e Octavio Paz. Verdade que meu candidato era outro, Ernesto Sábato. Verdade que Paz abandonou tarde demais o barco stalinista, só lá pelos anos 60, quando após a affaire Kravchenko, em 1949, a nenhum intelectual minimamente informado era permissível continuar defendendo o regime soviético. Mas pelo menos foi homem capaz de revisar seu itinerário. "Tenho medo do homem incapaz de mudar de idéias", dizia Camus. Premiando Paz, os Sveas honram a coragem e a lucidez de um herege, como também prestigiam a língua que, contemporaneamente, tem produzido a melhor literatura desta segunda metade de século. Quem perde pontos são os fanáticos. Escreve Paz:

"Acredito que existe um setor profundamente reacionário na América Latina: o dos intelectuais esquerdistas. Trata-se de uma gente sem memória. Jamais vi um deles reconhecer um erro cometido. O marxismo converteu-se em um vício intelectual e na superstição do século XX".

Quem ousa fazer tal afirmação só podia mesmo ser amaldiçoado do Alaska à Patagônia. Sua premiação, surpreendente à primeira vista, talvez tenha uma explicação. Ano passado, morreu em Estocolmo Artur Lundkvist, presidente da Real Academia Sueca e tradutor de Neruda ao sueco. Claro que um homem com tais credenciais jamais iria permitir a concessão do Nobel a um escritor que passou a denunciar a empulhação do século. Enfim, o Valhala parece ter aberto suas portas aos homens lúcidos. Mas falava de Karin Boye.

Em 86, em Uppsala, percorri a geografia de sua infância, adolescência e maturidade. Vinte graus negativos me cortavam o rosto como navalhas. Por dentro, eu me sentia aquecido, diria melhor, comovido com a evocação daquela sofrida escritora que acabou dando sentido a meu exílio. A propósito, se alguém quiser conhecer esta geografia, basta ver ou rever Fanny e Alexander, de Bergman. O filme foi rodado em época de uma nevada excepcional e a ausência de carros e sinais de tráfego nas ruas retrata a Uppsala de início deste século.

Boye, como a quase totalidade dos intelectuais dos anos 30 e 40, foi comunista e sua militância ocorreu no grupo sueco Klarté. Escritora de águas profundas, baseada na experiência do nazismo, ela antecipa a derrocada do sistema gêmeo, o comunismo.

Em Kalocaína (título brasileiro), vivemos em uma sociedade indefinida no tempo e no espaço. Nós a intuímos no século XX - o avião e o metrô já existem, e os personagens falam de uma grande guerra - mas Karin Boye não a data nem a situa geograficamente. Existe o Estado Mundial e as cidades não têm nomes: temos assim as Cidades Químicas, as Cidades dos Calçados, as Cidades Têxteis, cada uma atendendo por um número. Além do Estado Mundial - o mundo teria sido dividido em dois depois da Grande Guerra - há "os outros seres do outro lado da fronteira", o Estado vizinho, com o qual o Estado Mundial vive em guerra permanente. Cabe lembrar que esta ficção foi publicada em 1940. Sete anos depois, a Guerra Fria dividiria o mundo em dois blocos permanentes.

Nesta sociedade sem classes, que antecipa a estrutura política de Israel, seus habitantes são cidadãos e soldados ao mesmo tempo. O Estado oferece a cada um - recruta ou general - apartamentos estandardizados e uma alimentação padrão distribuída pelas cozinhas centrais de cada prédio. Como vestes, o cidadão-soldado dispõe de três uniformes: um para o trabalho, outro para o serviço policial-militar e um terceiro para o tempo de lazer. Pobres não existem, ricos muito menos. Olhos e ouvidos eletrônicos da polícia vigiam o interior de cada apartamento, mesmo à noite, através de raios infravermelhos, antecipação do Grande Irmão, de George Orwell. Mais ainda: as domésticas são trocadas semanalmente e têm o dever de enviar à polícia, após a prestação de serviços em uma família, um relatório sobre a mesma. Solicitações para visitas devem ser encaminhadas aos porteiros dos edifícios que, por sua vez, as encaminham à polícia. Concedida a permissão, o porteiro controlará a identidade e o horário de entrada e saída do visitante. No metrô e nas ruas, cartazes advertem:

Ninguém pode estar seguro.

Quem está a teu lado

pode ser subversivo.


Nesta atmosfera já asfixiante, Leo Kall, cientista da Cidade Química nº 4, descobre a droga sonhada por todos os profissionais de informação: a kalocaína. Com apenas uma dose, sem tortura alguma, todo indivíduo que tenha idéias associadas confessa alegremente e sem reservas sua culpa. Se o cidadão pertence por inteiro ao Estado, como poderiam os pensamentos e os sentimentos ser coisas privadas? Se até então eram as únicas coisas que não podiam ser controladas, agora o meio fora encontrado. Quando alguém objeta ter sido devassado o último refúgio da vida privada, Kall responde alegremente:

- Mas isto não tem importância alguma. A coletividade está pronta para conquistar a última região onde as tendências associais poderiam esconder-se. Vejo agora, simplesmente a grande comunidade aproximar-se de sua culminância.

A kalocaína começa a ser aplicada em cobaias e descobre-se, para espanto e temor dos serviços de segurança, uma espécie de seita onde as pessoas preferem relacionar-se entre si a relacionar-se com o Estado. Seus membros cumprem um estranho ritual. Alguém apanha uma faca e um outro dorme ou finge que dorme. O cientista químico crê estar tratando com loucos. Quer saber qual o sentido daquilo.

- Um sentido simbólico - diz a cobaia -. Através da faca ele se entrega à violência do outro. E no entanto nada lhe acontece.

Leo Kall suspeita da existência de alguma organização que quer tomar o poder ou, no mínimo, exige cargos no Estado:

- Organização? Não buscamos organização alguma. O que é orgânico não precisa ser organizado. Vocês constróem de fora para dentro, nós construímos de dentro para fora. Vocês constróem utilizando a vocês mesmos como pedras, e ruem por fora e por dentro. Nós nos construímos desde dentro como árvores, e crescem pontes entre nós que não são de matéria morta ou força bruta. De nós emerge o vivo. Em vocês submerge o inanimado.

Resumindo: à medida que a droga da verdade vai sendo aplicada, desvela-se a grande mentira. Nem mesmo o chefe de Polícia acreditava no que pensava e pregava. O Estado Mundial desmorona desde dentro. Verdade que os russos não chegaram à kalocaína, ou teria sido mais apressada a queda do império. Mas penso que podemos eleger Karin Boye como o primeiro escritor deste século a prever um desmoronamento interno do socialismo, sem que filosofia ou organização alguma necessitasse desfechar uma guerra. O que é orgânico não precisa ser organizado. O Muro caiu de podre. O socialismo também.

Boye tinha medo do livro que havia escrito. Nele está antecipado o Muro, a Segunda Guerra e a Guerra Fria, a Stasi e o KGB, o medo e a desconfiança mútua imperantes nos países socialistas. Quando sua mãe comenta que ela havia feito um bom livro, Boye comenta:

- Tu achas que fui eu quem o fez?

Em Kalocaína está a inexorabilidade da Revolução do Nove de Novembro, já considerada na Europa mais importante e prenhe de conseqüências do que a Revolução Francesa. Como seu primeiro aniversário certamente será esquecido entre nós, neste novembro, quando for revisitar a Feira do Livro de Porto Alegre e os jacarandás da Praça da Alfândega, azuis de flores, estarei fazendo uma palestra sobre Boye e a queda do Muro. Dia nove, sexta-feira, às dezoito horas.


(Porto Alegre, RS, 03.11.90)