¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, novembro 25, 2007
 
Crônicas da Guerra Fria (48)


O ESTRANHO AMOR DAS VIVANDEIRAS



Ai que vida que passa na terra
quem não ouve o rufar do tambor
quem não canta na força da guerra
ai amor, ai amor, ai amor!

Quem a vida quiser verdadeira
é fazer-se uma vez vivandeira.
Só na guerra se matam saudades
só na guerra se sente o viver,

só na guerra se acabam vaidades
só na guerra não custa morrer.
Ai que vida, que vida, que vida,
ai que sorte tão bem escolhida!

(Canção da vivandeira - Guerra do Paraguai, anônimo)



Curitiba - A Terceira Guerra, tão almejada pelos derrotados do século, já teve data várias vezes marcada. Para muitos, teria começado lá pelos anos 70. O vilão invariavelmente são os Estados Unidos e a razão é uma só, a luta pelo petróleo. Em 1978, Sir John Hackett, general inglês, assessorado por uma prestigiada equipe de outros militares, ousou fixar uma data: 04 de agosto de 1985. Do trabalho da equipe resultou um livro, The Third World War – August 1985. Este exercício de ficção política foi traduzido ao brasileiro pela Biblioteca do Exército Editora e hoje pode ser encontrado nos bons sebos da praça.

Mas de pouco adianta comprá-lo. Mais imprevisível que qualquer guerra foi a Revolução do Nove de Novembro. Sir John Hackett trabalhou com dados que hoje parecem pertencer a um passado distante. Desenha um quadro onde a Índia e a África do Sul estão desintegradas, formando várias repúblicas. A 29 de novembro de 1984, um submarino soviético afunda um cargueiro iraniano e um navio de espionagem americano é atacado no Golfo de Aden. Os berlinenses orientais começam distúrbios e o presidente do México é assassinado. No início do verão de 1985, a Rússia invade a Iugoslávia, forçando a OTAN e os Estados Unidos a reagirem contra a invasão. No desenrolar do conflito, o império soviético na Europa Oriental se desfaz. A luta na Europa termina em três meses.

Acontece que, em uma década, se esfarelaram boa parte dos pressupostos do general Hackett e sua equipe, composta aliás de eminentes oficiais-generais e conselheiros da OTAN. Berlinenses orientais não existem mais. A Rússia está tratando de sua própria fome e mal consegue conter a libertação de suas colônias. A Iugoslávia tende, espontaneamente, ao mesmo fim do império soviético na Europa Oriental, o desmoronamento desde dentro. O autor tampouco leva em consideração este fator imponderável no curso da História, os delírios de grandeza de um megalomaníaco armado até os dentes. Esta falha, aliás, sempre foi constante nas "científicas" análises dos finados marxistas: nenhum de seus teóricos previu a iniciativa bélica de insanos como Saddam ou Khomeiny.

A queda do muro – disse alguém – provocou a reunificação da Alemanha, a reunificação da Europa e, o que é mais importante, a reunificação do discurso. A Guerra Fria supria as necessidades dos cérebros binários-maniqueístas. Para estes senhores, interpretar o mundo era fácil quando de um lado havia o Mal absoluto, os Estados Unidos e, de outro, o Bem, também absoluto, a União Soviética. Mesmo após a derrocada do socialismo, seus cérebros não deixaram de funcionar binariamente: se antes havia o conflito entre Leste e Oeste, manifesta-se agora o conflito Norte-Sul, entre a civilização e a barbárie. Com esta simplificação eludem o fato que agora se tornou óbvio: socialismo era a barbárie. Aliás, continua sendo. Vontade de rir é o que não me falta quando os jornais mancheteiam uma ameaça de ditadura na União Soviética. Como se a partir de ontem tivesse sido instaurado, no império russo, qualquer sistema que mesmo de longe lembrasse a democracia.

As vivandeiras estão confusas. Para que o universo continuasse inteligível, era necessário que o urso soviético continuasse alinhado com o Iraque. Nada mais confortável do que tomar partido quando uma questão tem apenas dois lados. Um chanceler iraquiano acaba de confirmar minha hipótese ao acusar a URSS – ora, ora – de ter sido a responsável pela Guerra no Golfo. E por quê? Porque concordou com o fim da Guerra Fria, é claro. Gorbachov tem sua sobrevivência política – e até mesmo física – ameaçada, mal consegue segurar os cordões que mantêm o império empacotado, e ainda é acusado de ter iniciado uma guerra. Da qual, aliás, tem procurado se manter distante.

Outra afirmação espantosa – para não dizer criminosa – é acusar Israel de ter começado a guerra. Os judeus estão suportando estoicamente os mísseis cegos de Saddam e não falta quem os acuse da iniciativa bélica. Sei que é difícil acreditar. Mas na semana passada, após quatorze dias de guerra e sete Scuds jogados em Haifa e Tel-Aviv, um leitor me telefonava: viste a agressão dos judeus? Se fé removesse montanhas, até que não era nada. O pior é que remove evidências.

Para enfrentar os tomahawks, Saddam brande Alá. Acontece que Alá, como disse Roberto Campos, não tem software. As esquerdas, acometidas pelo que já passou a ser chamado de doença infantil do anti-americanismo, fazem manifestações pela paz. Que mal não pergunte: porque não as fizeram em agosto passado, quando começou a guerra?

No Brasil, pelo menos, Saddam já fez uma vítima: ao apoiá-lo, o PT deixou cair a máscara e mostrou sua verdadeira face. Pelo jeito, o PT ainda não matou o pai. Aquele bigodinho à la Djugatchilivi está fazendo furor nas esquerdas. Saudades do Paizinho dos Povos, bem entendido. Se bem que, em país onde se cultuou – e ainda se cultua – Envers Hodja, nada mais me espanta.

Mas se a reunificação da Alemanha hoje é fato consumado e a da Europa avança aceleradamente, a reunificação do discurso segue em ritmo de tartaruga. Quando Khomeiny entrou a ferro e fogo no Irã do Xá, as esquerdas imediatamente apoiaram o aiatolá. Pois Palhevi contava com o apoio do grande Satã americano. Até mesmo um jornalista soi disant lúcido como Paulo Francis, caiu na armadilha do pensamento binário e manifestou seu apoio ao fanático que fez o Irã retornar à Hégira. Palhevi morreu como um cachorro sarnento. Moribundo, teve seu quase-cadáver recusado por países cujos dirigentes foram alegremente saudá-lo em Persepólis. Por ocasião da guerra Irã-Iraque, cessou o alarido das esquerdas. Por um lado, não havia uma bússola ianque a orientá-los. Por outro, Saddam era protegido de Moscou. Sem falar que a intelligentsia ocidental pouco está ligando quando a carnificina é do lado de lá. Se eles são muçulmanos – ou amarelos – que se entendam entre si.

Em meio a este desnorteamento – sem trocadilhos – das viúvas da Guerra Fria, surge na Itália um Ernesto Bobbio afirmando que esta guerra é justa. Bobbio, pensador de bom tráfego junto aos milenaristas, fala da Guerra do 15 de Janeiro de 1991, é claro. Falasse da Guerra do Dois de Agosto de 1990, quando o Iraque invadiu o Kuait, em vez de estar sendo amaldiçoado, estaria respirando incenso. Pois o conceito de guerra justa fere a certas consciências supostamente delicadas. Poderíamos, por exemplo, citar Marx: a violência é a parteira da História.

Mas aí não faltará quem reclame: "alto lá, essa frase é nossa, os direitos autorais são nossos, só nós podemos usá-la". Quando os teólogos da libertação (mas onde é que se viu teologia libertando?) ciscam Tomás de Aquino para justificar a violência da guerrilha, louvado seja o Doutor Angélico. Mas ai de quem empunhar a Suma para justificar a reação a Saddam. Não faltará quem insinue a organização de novas cruzadas. Tão binário é o "pensamento" das vivandeiras, que estabeleceram uma segunda data para um fato que, como todos os fatos, tem uma data só. Bobbio, se consegue escapar ao primarismo dos desbussolados, acaba caindo na armadilha da cronologia.

Ao clamar pela paz, nesta altura da guerra, as vivandeiras em verdade defendem o fato bélico gerado pelo ditador iraquiano. Responsáveis pela guerra foram Bush, Gorbacthov, Kuait, Israel. Menos Saddam Hussein. Nunca foi tão oportuno relembrar Orwell. Em 1984, os donos da História e da linguagem conseguem convencer suas vítimas de que guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é sabedoria. Dr. Strangelove, o filme de Stanley Kubrick baseado no romance homônimo de Peter George, merecia também ser revisto. Quem não lembra do reflexo condicionado do braço direito do Dr. Strangelove?

Mal se falava em guerra, tinha de usar a mão esquerda para conter o braço que se erguia esboçando a saudação ao Führer. Certo, o filme é da época da Guerra Fria. Embora os tempos sejam outros, o mesmo fenômeno parece estar ocorrendo com as viúvas. Moscou deixou de apoiar Saddam e, pelo jeito, esqueceu de enviar ucasses para informação dos crentes.


(Porto Alegre, RS, 09.02.91)