¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, novembro 12, 2007
 
MORRER SIM, MAS DEVAGAR



A crônica que escrevi sobre o cardeal que via os cemitérios como repugnantes provocou, naturalmente, discussões sobre a morte. Evento do qual tive medo, em meus verdes anos, quando acreditava em deus e justiças do Além. Hoje, a vejo com naturalidade e não nutro medo algum em relação a esta senhora. Pelo menos no que diz respeito à minha morte. Duro, isto sim, é enfrentar a morte das pessoas que amamos.

"O destemor frente à morte é uma das qualidades mais raras e, por isso mesmo, uma das mais veneradas em todas as culturas, sobretudo naquelas antigas, em que os guerreiros e os heróis eram figuras dominantes e necessárias" – escreve um leitor –. "O Cristaldo chega afirmar ainda, com a sabedoria de um conselheiro Acácio, que não há nenhum mistério e nada de inexplicável na morte. Sugiro-lhe inclusive que escreva um livro sobre o tema, iluminando o nosso parco entendimento sobre o fatídico destino, já que inúmeros filósofos fracassaram nesse intento".

Sem me pretender guerreiro nem herói, de fato, não nutro medo algum da morte. Tenho medo, isto sim, da imortalidade. É possível que eu me sinta triste ao abandonar esta vida que foi e tem sido tão pródiga e tão prazerosa. Isso se a morte chegar antes do tempo. É possível que eu chore ao sentir que vou abandonar os meus. Mas medo, decididamente não. Medo têm os crentes, que temem enfrentar uma jurisdição do Além sem ter muita certeza se serão absolvidos ou não. Entendo a velhice como uma preparação para a morte. Nossas faculdades vão fenecendo e chega um momento em que o melhor mesmo é morrer.

Não vejo nada de inexplicável na morte, muito menos mistérios absolutos ou insondáveis. Não há mistério algum. Assim como nascemos, morremos. Tudo que respira morre. Se alguém quiser ter uma idéia dos horrores da vida eterna, sugiro ler Todos os homens são mortais, da Simone de Beauvoir. Um personagem do século XIII, o conde Fosca, teve a infelicidade de beber o elixir da imortalidade. E se arrasta entediado de século em século, aspirando à benção da morte. Ou o capítulo sobre os struldbruggs, nas Viagens de Gulliver, do Swift. A propósito, vou publicá-lo em seqüência a esta postagem.

Só vê mistérios na morte o homem iludido pelas religiões, que lhe acenam com a idéia estúpida de eternidade. Diz ainda o leitor: "Quem não se apavora frente a idéia de um descanso eterno? Se alguém soubesse que iria dormir e não mais acordaria, jamais pregaria os olhos". Ora, dormir e não mais acordar é a melhor das mortes. Sem consciência de morte, sem agonia, sem sofrimento. Tenho notícias de pessoas que morreram assim e as invejo.

Tampouco não me interessa escrever livro algum sobre a morte. Escreve sobre a morte quem com ela está preocupado ou espera alguma alternativa no Além. Não é meu caso. Quando jovem e católico, isto é, até aos 16 ou 17 anos, a idéia de morte me apavorava. Quando joguei fora a crença em Deus e em justiças do Além, me despreocupei totalmente. Minha única preocupação, na época, era viver com intensidade, pois não sabia se minha hora não seria amanhã. Se os filósofos fracassaram nesse intento – como afirma meu leitor – fracassaram porque estavam buscando algo no Além. Porque no Além não há nada. Não há Além.

Em O nascimento da tragédia, Nietzsche nos conta sobre o Rei Midas, que captura o fauno Sileno e dele ouve a terrível verdade: "Estirpe miserável e efêmera! Filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer o que seria para ti melhor não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor é morrer depressa".

Não, não chego a tanto. Morrer sim, mas devagar – como dizia Dom Sebastião, rei de Portugal. Minha única preocupação em relação à morte, hoje, é chegar lá sem maiores sofrimentos. Uma queda de avião seria muito oportuna. Aliás, era um dos sonhos de minha mulher, morrermos os dois juntos em um acidente aéreo. Seria o ideal. Pena que a vida quis diferente. Enfim, se o sofrimento for insuportável, sempre se consegue um médico gentil que dê uma mãozinha. Há circunstâncias em que o que mais se deseja é a morte.

Em um apólogo datado do século XVII, transcrito por Eugen Herrigel, em A arte cavalheiresca do arco e flecha, um grande mestre da espada ensinava sua arte ao shogum Tokugawa Jyemitsu. Certo dia, um dos guardiões do xógum aproximou-se do mestre e pediu que lhe ensinasse. "Segundo vejo - disse o mestre - já sois mestre da espada. Dize-me, te peço, a que escola pertences, antes que entremos numa relação de mestre e de discípulo".

O guardião contesta: "Envergonho-me em confessar que jamais aprendi tal arte".

"Te divertes comigo? Sou o mestre do venerável xógum e sei que meu olho não me engana".

"Lamento ofender vosso honor, mas a verdade é que não tenho nenhum conhecimento dessa arte".

Frente a tal negativa, o mestre vacilou e disse: "Se assim afirmas, assim será. Mas certamente és mestre em alguma outra disciplina, embora eu não veja bem qual é".

"Como insistis nisso, vos direi. Há uma única coisa da qual posso considerar-me mestre consumado. Quando ainda era moço, ocorreu-me que, sendo Samurai, não devia temer a morte em caso algum e desde então - já faz alguns anos - lutei continuamente com a questão da morte, até que deixei de me preocupar. Talvez seja isso que Vossa Mercê observa?"

"Exatamente - exclamou o mestre - é isso. Alegro-me que meu juízo tenha sido acertado, pois o último segredo da arte da espada reside também em estar liberado da idéia de morte. A centenas de alunos mostrei esta meta, mas até agora nenhum alcançou o grau supremo na arte da espada. Tu não necessitas nenhum exercício, já és mestre".