¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, novembro 15, 2007
 
NOSSA URBANA FRAGILIDADE



Ontem foi dia de blecaute em meu prédio. Um transformador explodido e quatorze horas sem energia. Voltei a meus dias de infância, quando lia à luz de velas. Isto é o de menos. O pior é a sensação de incomunicabilidade. Me senti urbano e frágil, desligado do mundo.

Enfim... O livro que estou lendo me fala de tempos em que ainda não haviam sido descobertas as velas. Pelo menos é o que deduzo da leitura da Bíblia, onde as três únicas ocorrências da palavra (Isaías, Ezequiel e Atos) referem-se a velas de navio. Refiro-me ao excelente ensaio de F. E. Peters, Os monoteístas, que faz uma análise comparativa das três religiões abrâmicas. Estou lendo o primeiro volume, não sei se o segundo já foi publicado no Brasil. Seja como for, é entusiasmante saber que há um outro volume a degustar.

Outra palavra que também não encontramos no Livro é catolicismo. Peters explica:

O termo "católico", do grego katholike, "universal", surgiu em parte como epíteto descritivo, em parte como slogan, na esteira da crise ariana no começo do século IV. O arianismo foi a primeira heresia "católica" ou generalizada na Igreja a se defrontar com o cristianismo, e foi combatida com exatamente a mesma noção, que a Igreja era universal, portanto "católica". A "Igreja Católica" descrevia o que se podia também chamar de "Igreja Imperial", Igreja que se estendia "por toda a parte", que de fato significava o Império Romano e seus arredores. A metade ocidental ou latina da Igreja Imperial foi desde cedo dominada pelo bispo de Roma, e a união deliberada de "romana" à Igreja Latina foi obra dos reformadores protestantes que quiseram indicar exatamente a particularidade da Igreja papal. No entanto, a Igreja papal continuou a manter sua pretensão de universalidade e a caracterizar os reformadores como dissidentes. Assim, "romano" e "católico" ficaram interligados, e é irônico que no uso comum o "católico" ecumênico seja agora comumente usado para descrever a suposta Igreja "romana" dos reformadores como "romana", que era o epíteto protestante alternativo.

Recomendo vivamente a leitura de Peters. Malandros, os católicos. Além de roubarem o livro dos judeus, se apropriaram da grife dos arianos.