¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, novembro 23, 2007
 
O AMARGO CAVIAR DO EXÍLIO



"Janer, achei excelente seu artigo sobre o Luis Fernando Veríssimo – escreve um leitor -. Ler o que você escreveu me lembrou que o melhor emprego do mundo é ser esquerdista no Brasil: o sujeito não precisa pensar muito (só repete os pensamentos do "rebanho"), ganha rios de dinheiro na vida privada enquanto posa de defensor do povo na vida pública e ainda se dá ao luxo de passar longas temporadas em Paris, como Verissimo ou Chico Buarque. Abração e um ótimo fim-de-semana!"

Pois, meu caro Costa, ser de esquerda sempre rendeu altos dividendos no século passado. Aliás, continua a render também neste. Não é que Chico Buarque passe longas temporadas em Paris: ele tem apartamento em Paris e numa das ilhas mais prestigiosas da cidade. Jorge Amado, um dos mais ativos comunistas do continente, inimigo implacável do capitalismo, tinha um magnífico apartamento às margens do Sena, com vista para a Notre Dame. Neruda, que vivia no circuito Elizabeth Arden do Ocidente, deu-se inclusive ao luxo de regalar uma de suas amantes com uma sofisticada mansão em Santiago, la Chascona.

Bertolt Brecht, o dramaturgo por excelência das esquerdas, aquele não via mal nenhum em roubar bancos, tinha seus ganhos muito bem guardados em bancos suíços. Ganhos obtidos com suas peças, que fustigavam o capitalismo que lhe guardava os dólares e louvavam as excelências dos regimes comunistas. Quando teve de fugir do regime hitlerista, refugiou-se nas capitalistas Áustria, Suíça, Dinamarca, Finlândia, Suécia e Inglaterra. Também esteve na Rússia – onde suas peças eram censuradas – mas apenas o tempo necessário para embarcar para os Estados Unidos.

Foram dias de glória e luxúria para escritores e artistas de esquerda. Exílio sempre foi festa. Você era expulso de um país de Terceiro Mundo e generosamente acolhido em países do Primeiro. Você quer saber onde está a melhor culinária, quais são os melhores vinhos? Fale com um intelectual de esquerda. Afinal, passou toda sua vida pesquisando quais os melhores restaurantes do mundo, para ter uma idéia de como seria a sociedade ideal. Ele sabe muito bem o que é o amargo caviar do exílio. Esta expressão surgiu nos 80 e me parece definir, com propriedade, a condição dos exilados de esquerda.

E ai dos escritores que não fechassem com a ideologia marxista. Eram expulsos do mundo dos vivos. As universidades lhes fechavam as portas, os jornais lhes proibiam suas as páginas. Sofri na pele esta condição. Titulado por uma das mais conceituadas universidades francesas, fui solenemente rejeitado pelas universidades brasileiras. Lembro que certa vez apresentei meu currículo à Universidade de Brasília. Era doutorado em Letras Francesas e Comparadas, me dirigi ao Curso de Letras. O chefe de departamento louvou minhas pesquisas, mas lamentou que eu não tivesse curso de Letras. Tinha só doutorado e isso não era suficiente. Sugeriu que me dirigisse ao Curso de Filosofia, afinal minha tese tinha conotações filosóficas e afinal eu tinha curso de Filosofia.

Fui ao Departamento de Filosofia da UNB. O chefe do dito considerou o fato de eu ter curso de Filosofia. Ocorre que eu não tinha doutorado em Filosofia. Sugeriu-me então que procurasse Comunicações, afinal eu tinha centenas de trabalhos publicados na imprensa. Fui ao Curso de Comunicações, ou como quer que se chamasse. O chefe de Departamento louvou meu currículo jornalístico. Mas infelizmente eu não tinha curso de Jornalismo. Claro que se eu pertencesse ao Partido ou ao PT, seria recebido de braços abertos em qualquer curso. Quanto a minhas peripécias no jornalismo, qualquer hora dessas volto ao assunto.

Ser comunista já não rende muito no Velho Continente. A Europa sempre esteve muito perto do mundo socialista e não quer nem ouvir falar de socialismo. A menos que seja socialismo na América Latina, na Ásia, na África. Na Europa, não. Enfim, nas últimas décadas os intelectuais de esquerda estão bastante desmoralizados no continente. O remédio é refugiar-se no Terceiro Mundo. Sempre a reboque do que acontece no Primeiro Mundo, a América Latina sempre precisou de umas duas ou três décadas para emparelhar o passo. Aqui, ainda há solo fértil para a cultura de Ches, Fidéis, Evos e Chávez.

Mas, como escrevi, é alvissareiro ver um Luís Fernando Verissimo perplexo ante a reportagem de Veja sobre o Che. O velho comunista já está intuindo que os tempos começam a mudar. Vai demorar um pouco, é verdade. É preciso que as múmias que ainda assombram universidades e jornais se decomponham definitivamente, para que as novas gerações se eduquem com liberdade.

Mas já está começando. E isso é bom.