¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, novembro 04, 2007
 
O CUSTO SOCIAL DA IGNORÂNCIA



Já que falei em Cervantes... Alguma vez na vida, talvez neste blog, contei episódio de uma sobrinha que foi visitar-me em Madri. Era formada em Relações Públicas por uma universidade gaúcha e estava em Londres para aperfeiçoar seu inglês. Ora, poucas coisas no mundo me dão tanto prazer quanto mostrar Madri a alguém, particularmente quando se trata de alguém que quero bem. Comecei pelo Café de Oriente, meu refúgio predileto. Após algumas copas y tapitas, mostrei-lhe o Palácio Real e seguimos pelos jardins de Sabatini. Ao chegarmos na Plaza de España, indiquei aquele monumento clássico, o Quixote montado no Rocinante e Sancho Pança em seu burrico.

- Aqueles dois, suponho que conheces – fui dizendo.

Melhor não dissesse. Para minha perplexidade, nunca ouvira falar. Jamais havia visto. Nem mesmo em figurinha.

Não entendi mais nada. Minha sobrinha era pessoa inteligente, nascera em cidade universitária, fizera curso superior, era executiva bem sucedida em São Paulo e sempre teve curiosidade pelo mundo. Aquela lacuna só tinha uma resposta, o fracasso total do ensino secundário e superior no Brasil. Como era pessoa que nunca vivera em torre de marfim, mas sim sempre em contato com jovens e adultos, concluí que ela não deveria constituir exceção entre os de sua geração.

Ainda nenhuma instituição fez uma pesquisa para saber quantos brasileiros tenham notícias de quem sejam o Quixote e Sancho Pança. O resultado seria certamente vergonhoso. Há algum tempo, zapeando pela televisão, testemunhei outro momento chocante. Sílvio Santos perguntava a uma universitária qual era a capital da França. Apresentava cinco alternativas e uma delas, é claro, era Paris. Pois não é que a universitária apontou Atenas?

Que alguém desconheça o Quixote me pareceu até mesmo inteligível, afinal é personagem de quatro séculos atrás e pertence ao mundo das Letras. Mas desconhecer a capital da França? Quando toda mídia, tanto cinema como televisão, rádio ou jornais, estão a toda hora mostrando Paris? A impressão que fica é que há cabecinhas na universidade que não conseguem reter uma unidade sequer de memória.

A Veja desta semana nos traz casos bem mais graves. Pesquisa do instituto Ipsos, feita com mil pessoas em setenta municípios de nove regiões metropolitanas, mostra que

- 97% dos entrevistados não sabem onde fica a França. Alguns a situam na Groenlândia, outros na Alemanha, outros na Ucrânia
- 92% não sabem onde fica o Japão. Há quem o situe na Austrália. Outros, na Rússia
- 84% não sabe onde fica a Argentina. Para alguns fica na Bolívia, para outros no México
- 82% não sabe onde ficam os Estados Unidos. Uns acham que fica no Canadá, outros na Rússia.

E, pasmem: 50% não sabe onde fica o Brasil. Quase 10% dos entrevistados que passaram por uma faculdade, tendo completado ou não o curso, não sabem que o Brasil se localiza na América do Sul. (Aqui uma pergunta se impõe: como pode a universidade permitir o ingresso de pessoa que não sabe onde fica o Brasil?) Esse percentual sobe para 30% entre os que fizeram o ensino médio e aumenta para 50% entre os que iniciaram o ensino fundamental.

Ignorância não quer dizer infelicidade, dizia-me recentemente um amigo. De fato. Eu até aventaria que os brutos, em sua insciência, não precisam de maiores conhecimentos para viverem felizes. Mas ignorância tem um custo social muito alto. Esta fatia de brasileiros que sequer sabe onde fica o Brasil é quem pôs no poder os analfabetos e corruptos que hoje dirigem a nação.

Não existe no mundo país que tenha se desenvolvido tendo como matéria-prima a ignorância. A educação que o Brasil hoje oferece empurra o conhecimento cada vez mais para baixo. A universidade não tem mais preocupação alguma em captar os melhores. Com a política crescente de cotas, os piores têm direito adquirido aos bancos acadêmicos. Verdade que há ainda um núcleo de substância pensante que mantém o país o pé.

Mas este núcleo parece não estar se reproduzindo, e sim minguando. Ai dos que estão chegando.