¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

segunda-feira, novembro 12, 2007
 
STRULDBRUGGS



Relato do capitão Lemuel Gulliver, a princípio cirurgião e depois capitão de vários návios, sobre uma peculiar raça de imortais encontrada na ilha de Luggnagg.


Disse-me primeiramente que não era o único estrangeiro que olhava com espanto e com inveja a situação dos struldbruggs; que encontrara nos Balnibarbos e nos Japoneses pouco mais ou menos as mesmas exposições; que o desejo de viver era natural do homem; que aquele que tinha um pé para a cova, se esforçava por se manter firme no outro; que o velho mais corcovado imaginava sempre um amanhã e um futuro e apenas encarava a morte como um mal longínquo e fugidio; mas, na ilha de Luggnagg se pensava de um modo bem diferente, e que o exemplo familiar e a contínua presença dos struldbruggs haviam preservado os habitantes desse insensato amor pela vida.

— O sistema de conduta — continuou ele — que se propunha na suposição de ser imortal e que há pouco traçou, é ridículo e completamente contrário a todo o raciocínio. Supôs, decerto, que, nesse estado, gozaria de uma eterna mocidade, de um vigor e de uma saúde de ferro. Mas, quando perguntámos o que faria se tivesse de viver sempre, supusemos porventura que nunca envelhecesse e a sua pretendida imortalidade fosse uma eterna primavera?

Em seguida, descreveu-me os struldbruggs, dizendo que eram semelhantes aos mortais e como eles viviam até aos trinta anos; que, depois dessa idade, caíam a pouco e pouco em negra melancolia, que aumentava sempre até atingirem os oitenta; que, por então, não eram apenas sujeitos a todas as enfermidades, a todas as misérias e a todas as fraquezas dos velhos dessa idade, mas a aflitiva idéia da eterna duração da sua miserável caducidade os atormentava a tal ponto que nada podia consolá-los; que não eram simplesmente, como todos os outros velhos, cabeçudos, rabugentos, avarentos, carrancudos, linguareiros, mas gostavam de si próprios, renunciavam às doçuras da amizade, não dispensavam ternura a seus filhos e que, além da terceira geração, já não reconheciam a posteridade; que a inveja e a raiva os devoravam continuamente; e que a vista dos sensíveis prazeres de que usufruem os juvenis mortais, os seus divertimentos, os seus amores, os seus exercícios os faziam de certo modo morrer a cada momento; que tudo, até a própria morte dos velhos que pagavam o tributo à natureza, lhes excitava a raiva e os mergulhava no desespero; que, por essa razão, todas as vezes que viam realizar-se um enterro, maldiziam a sua sorte e se queixavam amargamente da natureza, que lhes recusara a doçura de morrer, de acabar a sua aborrecida carreira para entrar num eterno repouso; que já não se encontravam em estado de cultivar o espírito; que a memória enfraquecia; que mal se lembravam do que tinham visto e aprendido na sua mocidade e na idade madura; que os menos miseráveis eram os que tinham entontecido, que tinham perdido completamente a memória e estavam reduzidos ao estado infantil; esses, ao menos, encontravam quem se condoesse deles, dando-lhes todos os recursos de que necessitavam.

— Quando um struldbrugg — acrescentou — se casa com uma struldbrugg, o casamento, conforme as leis do Estado, é dissolvido logo que o mais novo dos dois chegue aos oitenta anos. É justo que desgraçados entes humanos, condenados, contra a vontade e sem o haverem merecido, a viver eternamente, não sejam ainda, para acréscimo de desgraça, obrigados a viver com uma mulher eterna. O que é mais triste ainda é que, depois de ter atingido esta idade fatal, são olhados como mortos civilmente. Os seus herdeiros apoderam-se dos seus bens; são-lhes dados tutores, ou antes, são despojados de tudo e reduzidos a uma simples pensão alimentícia (lei muito justa em virtude da sórdida avareza comum aos velhos). Os velhos são mantidos por custeio público numa casa chamada: hospital dos imortais pobres. Um imortal de oitenta anos já não pode exercer um emprego ou função alguma; não pode negociar, não pode contratar, não pode comprar nem vender e o seu próprio testemunho não é reconhecido em justiça.

Quando, porém, atingem noventa anos, ainda é pior: todos os dentes e cabelos caem; perdem o paladar e bebem e comem sem prazer algum; perdem a noção das coisas mais fáceis de reter, e esquecem o nome dos amigos e às vezes o próprio. Torna-se-lhes por este motivo inútil entreterem-se com a leitura, pois que, quando querem ler uma frase de quatro palavras, esquecem as duas primeiras, enquanto lêem as duas últimas. Pelo mesmo motivo lhes é impossível conversar com alguém. Além disto, como a língua deste país está sujeita a freqüentes mudanças, os struldbruggs nascidos num século têm muito trabalho em compreender a linguagem dos homens nascidos noutro século, e são sempre estrangeiros na sua pátria.

Tais foram os pormenores que me forneceu a respeito dos imortais desse país, pormenores que me surpreenderam em extremo. Em seguida, mostrou-me uns seis, e confesso que nunca vi nada mais feio e mais desagradável; as mulheres, sobretudo, eram horrorosas; imaginei ver espectros. O leitor decerto compreenderá que perdi, então, toda a vontade de tornar-me imortal por semelhante preço. Fiquei vexadíssimo com as loucas imaginações a que me entregara sobre o sistema de uma vida eterna neste baixo mundo.

O rei, sabendo da conversa que eu mantivera com aqueles de quem falei, riu muito das minhas idéias sobre a imortalidade e a inveja que eu sentira pelos struldbruggs. Em seguida, perguntou-me muito a sério se eu queria levar comigo dois ou três exemplares deles para o meu país, para curar os meus compatriotas do desejo de viver e do medo de morrer. No íntimo, sentiria muito prazer em que me tivesse feito esse presente; mas por uma lei fundamental do reino é proibido aos imortais sair dele.


Viagens de Gulliver, Jonathan Swift