¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, novembro 13, 2007
 
UMA CENA DE TERROR



"Quase dezessete anos antes, Janer, você já dizia o que os ateus mais conhecidos de hoje dizem, religião é abuso infantil. Uma criança não pode ter religião. No máximo, tem a religião de seus pais" – me escreve Raphael Piaia, a propósito da crônica abaixo. Em verdade, faz bem mais tempo que escrevo. Certamente há mais de quarenta anos. Meu primeiro artigo, num jornalzinho estudantil de Dom Pedrito, quando eu teria uns quinze anos, intitulava-se "Esses padres..." Não lembro do que escrevi então, mas pelas reticências certamente não foi uma declaração de amor.

Nasci no campo, em um ambiente que não hesitaria de definir como pagão. Meus pais e o resto da parentada tinham uma vaga crença em Deus, que na verdade não diferia em muito da crença de um Einstein. Que escreveu, certa vez, a um correspondente:

"Foi, claro, uma mentira quando você leu sobre minhas convicções religiosas, uma mentira que está sendo sistematicamente repetida. Eu não acredito em um Deus pessoal, e nunca neguei isso; ao contrário, o disse claramente. Assim, se há algo em mim que possa ser chamado de religioso é a ilimitada admiração pela estrutura do mundo na medida em que nossa ciência possa revelá-la". (Apud Hitchens)

Sem ser cientista – pelo contrário, era um camponês de poucas letras – meu pai acreditava que algo deveria existir, e não mais que isso. Era hostil a padres e não gostava muito de palavrórios vazios. Foi quando passou então em meus pagos uma catequista do Uruguai, mulher de um fazendeiro de Villa Indarte. Arrebanhou toda a meninada daquele rincão para o catecismo. O que, para nós, era uma festa, tínhamos a chance de andar de camionete. Aí começamos a ouvir palavras estranhas para nós: sangue de Cristo, Virgem Maria, mãe de Jesus, Sagrado Coração, Santíssima Trindade e outras que tais. O que eu não conseguia entender era o tal de sangue de Cristo, que teria sido derramado não só pela humanidade como por mim também.

Mais tarde, lá pelos dez anos, fui estudar na cidade, num colégio dirigido pelos padres oblatos, da Alemanha. Logo logo os padres me jogaram na Congregação Mariana. Abriram minha cabeça a machado e jogaram doutrina dentro. Eu não entendia certos conceitos? Era para não entender mesmo. É dogma e fim de papo. Não é dado aos mortais entender os dogmas. Só lhes resta aceitá-los.

Resumindo: fui educado em meio a uma religião moralista, que dava especial destaque aos chamados pecados da carne. Para pecar, não era necessário nem mesmo praticar sexo ou masturbar-se. Bastava ter pensamentos libidinosos e eu já estava incurso em pecado mortal. Qualquer ereçãozinho juvenil era uma ofensa ao Cristo, que havia derramado seu sangue por nós, ingratos mortais. Ora, qual adolescente não tem ereções? Só se for um anormal. Esta é a estratégia mais sórdida dos padres: impor regras impossíveis de serem cumpridas, para que os fiéis cheguem ao confessionário sempre cheios de culpa.

Nosso destino era o inferno, com todos seus horrores, chamas, gemidos e ranger de dentes. A não ser, é claro, que confessássemos todos nossos pecados – e eles eram sempre relativos a sexo – a um padre que provavelmente se masturbava no confessionário.

O padre queria detalhes. Não bastava dizer: "pequei contra a carne". O padre queria saber com quem foi. Como foi? Solitário ou acompanhado? Quantas vezes? Talvez aqueles oblatos não tivessem consciência disto, mas eles foram os precursores do sexo oral, isto é, desta sexualidade que hoje se exercita por telefone. Só que na época não havia telefone, tudo era feito por sussuros e tête-à-tête, o que tornava a coisa mais excitante.

Vivi dias e noites de terror naqueles dias. À menor masturbação, ereção ou "pensamento feio", já me sentia queimando nas chamas do inferno. Apressava-me a fazer um ato de contrição, para garantir a salvação pelo menos até a confissão dos sábados. A cada sábado, lá estava eu ajoelhado frente àquele torturador, ajoelhado e humilhado pela confissão de minhas misérias. E eu sabia que não podia mentir. Não adiantava mentir. Quem me ouvia era Deus, o onisciente. Nas noites de tempestade, o pânico era total. O leitor pode até achar que é mania de grandeza. Mas cada raio que caía, eu achava que era dirigido a este pecador. Me ajoelhava e rezava desesperado, prometendo nunca mais pecar. Passada a tormenta, eu já estava pecando de novo.

Ora, eu estava rodeado de árdegas filhas de Maria. E a carne, ao contrário do que se pensa, é forte. Tão forte que sempre acaba vencendo. A simples proximidade feminina me induzia ao pecado. Resolvi um dia ler a Bíblia, principalmente aquela parte onde estão os mandamentos. Queria saber se Deus ordenara mesmo não pecar contra a castidade. Para minha surpresa, a palavra castidade sequer existia na Bíblia. Pelo contrário, havia personagens se masturbando, um pai tendo relação com suas duas filhas, patriarcas prostituindo suas esposas, reis e profetas com várias mulheres e outras tantas concubinas. Repassei a Bíblia com uma filha de Maria particularmente interessante, mostrei-lhe que no livro sagrado não havia nada que proibisse sexo. Ela concordou comigo. Foi quando o inábil atroz que vos escreve cometeu esta gafe fatal:

- Então, vamos lá?

- Credo, Janer, pára com essas bobagens. Quem pensas que sou?

Foi ridículo mas foi didático. Descobri desde cedo que quando se quer uma mulher, os argumentos racionais de nada valem. O caminho é outro. Passei então a aprofundar-me na Bíblia. Foi lendo as sagradas escrituras que me tornei ateu. Fui tomado de uma embriagante sensação de liberdade. O mundo agora era meu e eu podia fazer com meu sexo o que bem entendesse. Minha primeira preocupação foi recuperar o tempo perdido. E recuperei-o com prodigalidade. Aliás, acho que passei o resto de minha vida tentando recuperá-lo.

Religião é droga muito poderosa. Não deve ser ministrada a crianças. Foi Richard Dawkins, creio, que manifestou seu espanto de nos chocar a idéia de uma criança comunista, mas não nos chocamos com a idéia de uma criança católica. Em seu livro Deus – um delírio, o escritor conta uma história de terror, protagonizada pelo mestre do terror, Alfred Hitchcock. O cineasta dirigia por uma estrada na Suíça, quando de repente apontou pela janela do carro e disse: "Essa é a cena mais aterrorizante que já vi". Era um padre conversando com um menininho, a mãe dele sobre o ombro do garoto. Hitchcock pôs a cabeça para fora do carro e gritou: "Fuja, menininho! Salve sua vida!"

Eu tive a ventura de fugir a tempo. Mas quantos pobres coitados andarão por aí, arrastando seus grilhões mentais, por não terem escapado a tempo da tirania da religião?

Volto ao assunto a qualquer hora.