¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, dezembro 13, 2007
 
COMUNISTA QUER LÍNGUA ESTANQUE



A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou hoje pela manhã projeto do deputado Aldo Rebelo, que proíbe o uso de estrangeirismos no país. Pelo projeto, toda palavra ou expressão escrita em língua estrangeira e destinada ao conhecimento público no Brasil virá acompanhada, em letra de igual destaque, do termo ou da expressão correspondente em português. Isso inclui os meios de comunicação de massa, as mensagens publicitárias e as informações comerciais.

O projeto vem de longe. Já escrevi sobre o mesmo em 1999. Em verdade, a preocupação do deputado comunista é com a invasão de palavras inglesas no cotidiano nacional. Rebelo considera descaracterização de nossa língua a invasão de palavras como "holding", "recall", "franchise", "coffee-break", "self-service" e aportuguesamentos como "startar", "printar", "bipar", "atachar", "database". Luiza Erundina, nordestina como Rebelo, também não gostava de palavras estranhas ao idioma. Quando prefeita de São Paulo, quis proibir palavras estrangeiras nos cardápios dos restaurantes, obrigando o eventual devoto da culinária francesa a comer um prosaico pato com laranja, em vez de degustar um autêntico canard à l'orange. Mas como traduziríamos filé? Ou menu? Ou garçom? A prefeita nada disse sobre o assunto.

A luta contra os anglicismos preocupa todos os países não-anglófonos. Nos anos 70, Etiemble já denunciava em Paris a invasão da França pelo que chamou de franglais. Legislação semelhante à proposta por Rebelo foi adotada na França. Ocorre que vivemos dias de Internet. Os franceses podem dizer ordinateur em vez de computer, logiciel em vez de software, souris em vez de mouse. Mas o mar de palavras do campo da informática que invade a praia dos franceses a cada ano, os submerge antes que possam ser traduzidas. Internet, computadores, Windows ou browsers são coisas de ianques. Melhor relaxar e gozar.

O deputado Rebelo, em aguda crise de anti-americanismo infantil, assesta suas baterias contra os anglicismos e aportuguesamentos. No entanto, desde que o homem saiu a trotar mundos - e isso já faz alguns séculos - nenhuma língua mais é pura. Um brasileiro pode ser analfabeto, mas fala latim, francês, árabe ou grego, com fluência e todos os dias. Ao perguntar por um ônibus, você fala latim. Ao chamar o garçom ou pedir um filé, ao entrar na garagem ou carregar a bagagem, você está falando um excelente francês. Ao comprar alface ou ir a um alfaiate, você falou árabe. Palavras como táxi ou telefone são grego puro, sem mistura. Estas palavras importadas, constantes do acervo de qualquer língua, são milhares. Seria insano pretender bani-las do vernáculo.

Quanto a aportuguesamentos, os usuários da língua são pródigos em soluções. Se hot dog ou cheeseburger são demonstrações de imperialismo aos olhos do comunista alagoano, em São Paulo os vendedores de cachorro quente encontraram algo abominável para designar a profissão, mas que soa a vernáculo: são dogueiros. Não pretenderá o deputado que se chamem cachorreiros. No Brasil, cheese virou xis. Que acabou tornando-se sinônimo de sanduíche, aliás outro anglicismo. Em Florianópolis, eu li esta pérola do gênio ilhéu, uma barraca anunciando - juro que li! - xis com queijo. Outro dia, passando por um boteco vagabundo, vi cartaz anunciando uma feijoada a cinco reais. Com um convite: enjoy it!

Os portugueses, mais zelosos, não falam em menu, mas ementa. Não chamam o garçom, mas o camareiro. Não usam prêt-à-porter, mas pronto-a-vestir. Monitor não é monitor, mas tubo visor. Mouse é rato. É uma opção. Mas Rebelo que me desculpe: prefiro clicar o mouse a premer o camundongo.

O projeto do deputado prima pela incultura. As línguas não são estanques e se formadas a partir de estrangeirismos. Só no bestunto de um comunista existe língua pura. De qualquer forma, será divertido ver as autoridades censurando os meios de comunicação de massa toda vez que usarem um estrangeirismo. Para começar, os suplementos de informática seriam todos proibidos.