¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

domingo, dezembro 02, 2007
 
Crônicas da Guerra Fria (54)


A DURA VIDA DE CAMPUS



São Paulo - Estava outro dia no Brahma, ali na Ipiranga com a São João, quando um vizinho de mesa, logo ao sentar, foi perguntando pelo preço do chope. O garçom disse o que lhe cabia dizer: 480 cruzeiros. Meu vizinho contorceu-se na mesa, olhou para mim e desfiou um rosário de queixas: que horror este país, onde é que se viu chope a 480, onde é que vamos parar? Fui solidário com meu interlocutor: pedimos dois chopes.

Outro dia, em Porto alegre, falava com um professor universitário. Queixava-se de 90, o pior ano de sua vida. Assim como quem não quer nada, fui puxando assunto e, ao final da charla, obtive três dados significativos. Em 90, ele havia quitado um apartamento em Petrópolis, havia passado três meses em Paris com mulher e filhos e tinha trocado de carro por um modelo do ano. Realmente, 90 foi um horror.

Claro que havia votado no Lula, como aliás a maioria dos professores universitários, que completaram uma greve de mais de cem dias, sem que o país tenha se dado conta de que estão em greve. O que só demonstra uma coisa: do jeito que está, a universidade pública no Brasil é perfeitamente descartável. Imagino que 91 tenha sido ainda pior que 90 para meu interlocutor: três meses e meio sem trabalhar, recebendo tranqüilamente o salário no dia certo.

O pior de tudo, queixava-se outro professor, é que a imprensa não nos dá cobertura. O sangue frio do acadêmico me deixou perplexo. Estávamos em São Paulo, única capital do país na qual o salário de um jornalista pode ombrear com o de um professor das universidades federais. Com uma diferença: a carga horária média de um professor da USP, por exemplo, é de 3,9 horas/aula por semana. Cabe ainda lembrar que uma hora/aula é, em verdade, 45 minutos. Ora, os professores universitários, de modo geral, estão no regime das 40 horas semanais. Ou pelo menos 20. Temos então que, na universidade padrão do Brasil, um professor cumprindo quatro horas efetivas de trabalho por semana, recebe em geral por 40 ou, pelo menos, por 20 horas.

Ora, direis, e a pesquisa onde é que fica? De fato, há professores que elaboram pesquisas sérias e oportunas. Mas estes são minoria e duvido que constituam dez por cento do corpo acadêmico. Jornalistas, trabalhamos teoricamente cinco horas por dia, de fato sete ou oito e muitas vezes dez ou onze horas. Jornalista tem hora de entrar no jornal. Mas não tem hora de sair. O telex * e o modem nos jogam os fatos brutos na mesa, quase na hora em que acontecem, e temos de reelaborá-los rapidamente para que na manhã seguinte o leitor adoce seu café com cadáveres, massacres, terremotos. E não temos o direito de errar uma vírgula, uma letra de um nome impronunciável. Sem falar nos processos intimidatórios e ameaças de morte que estão se tornando cada vez mais freqüentes no Brasil. Não por acaso, mesmo que não seja assassinado, o jornalista em geral morre cedo. Sob um regime de tensão extrema, cumprimos no dia uma cota de trabalho que um professor da USP não cumpre em uma semana.

Estes senhores vêm então queixar-se de que nós, jornalistas, não somos solidários com a famosa greve, que durou mais de cem dias sem que o país, como um todo, dela se desse conta. Transporte-se o problema para o interior do Brasil, onde jornalista sequer sonha em ganhar um terço do que ganha um bolsista da Capes, e o que parecia irônico vira cinismo. Enfim, esta greve paranóica, deflagrada por lideranças desvairadas, não deixa de ter sentido: mostra que a sociedade pode tranqüilamente dispensar os serviços desse paquiderme oneroso e inoperante no qual se transformou a universidade pública brasileira.

Não me refiro, bem entendido, a cursos como medicina, engenharia, odontologia, biologia ou agronomia. Destes, todo país precisa. Mas os cursos de jornalismo, só para começar, podiam acabar que deles ninguém sentiria falta, fora os apaniguados do magistério. Não há país civilizado que exija curso de jornalismo para o exercício da profissão. Esta exigência legal no joga na vala comum da barbárie socialista.

Continuando: se os cursos de Direito fossem reduzidos em 90 por cento, mesmo assim teríamos rábulas sobrando para o início do próximo milênio. Quanto aos de Letras, se desaparecessem dos campi, a literatura e os próprios escritores respirariam melhor. Já os de Sociologia, vão acabar morrendo de inanição conceitual: as teorias que os nutriam foram sepultadas no mês passado.

O Brasil jamais sairá deste atoleiro de Terceiro Mundo enquanto a universidade, como também a maioria das estatais, não for privatizada. Enquanto professores que ganham de dez a vinte salários mínimos para dar quatro aulas por semana se dão ao luxo de cruzar os braços por mais de cem dias, continuaremos patinando neste final de milênio. No caso específico da universidade brasileira, um corte profundo terá de ser feito nos cursos ditos de humanidades, que até hoje só têm se prestado, em sua maioria, para a pregação de teorias mortas.

O tema da corrupção e decadência da universidade brasileira é tão fascinante, que até perdi o fio do assunto. Falava dessa sacrificada classe média tupiniquim, que chora de barriga cheia. Que sofre quando o chope custa um dólar, escamoteando o fato de que cinco ou dez chopes por noite pouco afetam seus rendimentos. Desses bravos doutores, que intercalam três meses de greve, mais outros tantos de férias, tendo de suportar o trabalho escravo de três meses de magistério por ano, na base de três ou quatro horas/aula por semana. De fato, dura é a vida de campus.

Talvez um dia os professores de Letras acabem descobrindo que o surrealismo não se encontra propriamente nos textos de Breton ou nos filmes de Buñuel, mas no dia-a-dia de cada um deles. Qual ficcionista conseguiu imaginar um Estado que financia a sua própria contestação? Afinal de contas, a universidade é autônoma. Os professores são efetivos. E o Tesouro nacional paga pontualmente, ao final de cada mês, os gordos salários dos bravos grevistas. Se o autoritarismo fascista de Brasília decide não pagar quem não trabalha, que horror! E a autonomia universitária, onde é que fica?

E depois ainda há quem ache que o Brasil pode ingressar no Primeiro Mundo sem acabar com esse monstrengo corrupto - ilhas de competência à parte - que é a universidade pública brasileira.

* Falo da época em que as notícias eram transmitidas por telex.


(Porto Alegre, RS, 28.09.91)