¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, dezembro 02, 2007
 
MINHAS CIDADES DILETAS - ROMA



O homem não viaja para conhecer geografias e sim para conhecer a si mesmo. É viajando que descobrimos quem somos e o que realmente queremos. Descobrimos inclusive o país em que vivemos. Gosto de repetir uma frase de Chesterton: não se conhece uma catedral permanecendo dentro dela. Uma pessoa que jamais saiu do Brasil dificilmente conhecerá o Brasil, já que não tem elementos de comparação.

Toda viagem é um teste de sobrevivência. Não falo é claro de quem viaja em rebanho. Uma excursão é uma espécie de cápsula, onde o turista viaja protegido pelo útero de seu país. Em verdade, não saiu de casa. Permanece envolto por sua cultura, por sua língua e por seus hábitos mentais. Só uma vez em minha vida viajei em excursão. Foi quando fui para El Hoggar, no Sahara argelino. Por um lado, não havia outra opção, ninguém viaja só ao deserto. Por outro, não tem graça alguma viajar sozinho pelo deserto.

Por razões personalíssimas, pus Madri em primeiro lugar entre as minhas diletas. Deve influir nisto meu apreço pelo mundo hispânico. Sempre me considerei mais platino que brasileiro, sempre me senti mais em casa em Buenos Aires do que em Porto Alegre ou São Paulo. Como latino, me sinto um tanto estrangeiro no universo anglo-saxão. Será talvez por isso que não nutro muitos amores por Reino Unido ou Estados Unidos. Minha segunda eleita foi Paris. Em terceiro lugar, coloco uma cidade aonde não cheguei a viver, que não conheço muito, mas que adoro: Roma.

Começa pelo idioma, adoro ouvir italiano. Também conta nesta eleição o caráter horizontal da cidade. Mais a arquitetura antiga, a História pingando das paredes. Você está em pleno século XXI, dá alguns passos em qualquer direção e vai para dois mil anos ou mais atrás. Invejo as crianças de Roma: elas estudam história antiga in loco. Você sai do Vaticano e em poucos minutos cai no Fórum. Mais alguns passos e está no Coliseu. Adoro também as cores da cidade, aqueles tons de ocre e salmão que predominam por todas as ruas.

A cordialidade dos italianos. Certa vez sentei em um trem com uma romana, em poucos minutos ela extraiu toda minha vida, queria saber meus pais eram mortos ou vivos, se minha irmã era casada, se tinha ou não tinha filhos, que fazia na vida. Você compra um jornal em um quiosque e antes de receber o troco já está discutindo política italiana com o jornaleiro. É uma diferença brutal em relação aos sisudos hiperbóreos. Em meus dias de Suécia, ouvi uma historinha em Estocolmo. Um sueco entrou na cabine de um trem, onde outros dois suecos contavam piadas e riam. O primeiro sueco, polidamente, apresentou-se aos outros dois e perguntou: “agora que nos conhecemos, posso rir com vocês?” Claro que é piada. Mas define muito bem a idiossincrasia dos homens do norte.

Mais a estrutura da cidade. O centro de Roma é propriedade exclusiva dos pedestres. Um grande triângulo, formado por três ruas que partem de um único ponto, constituem o Tridente, espaço onde quase não entram carros. É uma cidade para se passear. Aliás, como Madri. As pessoas vão às ruas... para ver as pessoas que vão às ruas. É a antiga flânerie parisiense, lazer que, brasileiros, perdemos definitivamente em nossas capitais. Ninguém é suicida no Brasil de hoje para passear à noite pelas ruas das capitais. Aliás, de dia já não tem muita graça e tem seus riscos. Minhas flâneries geralmente terminam no Greco, um dos mais sofisticados cafés da Europa, nas proximidades da Piaza di Spagna. É caro. Mas é muito bom estar lá, ante uma grapa ou um prosecco.

Gosto muito também de bebericar no Campo dei Fiori. Não que os cafés que lá existem sejam brilhantes. Mas aquele monumento a Giordano Bruno, queimado pela Inquisição ali mesmo, naquela praça, com a língua estraçalhada por pregos e tábuas para que não mais falasse, é uma presença reconfortante, o gesto de um homem que não se dobrou à tirania do Vaticano. Pertinho do Campo dei Fiori, está a Piazza Navona, com sua fonte magnífica. O único toque desagradável é a embaixada brasileira ali instalada. Lembrar que um tanso como Itamar Franco gozou daquela paisagem dói na alma de todo brasileiro sensível. E se você um dia curtiu cinema, ao chegar na Fontana di Trevi é claro que vai ver a Anita Ekberg semidesnuda sob as águas da fonte.

Outro momento divino é tomar um café, em uma manhã ensolarada de inverno, nas terrasses frente ao Panteon. Bem entendido, quando mais prestigioso o monumento, mais caro você paga pelas consumações. Que fazer? Em Roma, como os romanos. E haja pernas para flanar. É bom lembrar que Roma tem sete colinas. Mas devagar se vai ao alto. Em meio a isso, acresça os vinhos, a gastronomia e a música italiana e você fica definitivamente enfeitiçado pela cidade.

Detalhe insólito: certo fim de tarde, eu vagava pelas margens do Tevere, nas proximidades do Vaticano. Dia claro, tendendo ao crespúsculo, sinal nenhum de chuva no fundo do ar. E um monte de romanos andando de guarda-chuva. Pensei como Asterix: Ils sont fous, ces Romains! Estávamos perto de uma zona arborizada e um aparelho emitia sons de pardais, suponho que para atrair os pássaros para as árvores. E eles vieram. Centenas de milhares, a ponto de escurecer o dia. E eu estava embaixo deles. Aí entendi os guarda-chuvas. Corri com todas as pernas que tinha para longe das árvores. Enfim, escapei ileso.

Em 2003, fui para Roma com minha Baixinha, com a intenção de ficarmos uns dois meses parados por lá, aperfeiçoar o italiano, estabelecer relações com jornaleiros de quiosques, garçons e restauradores, vizinhos de mesa nos bares, enfim, ter um contato mais íntimo com a cidade. Os deuses não o permitiram. Já nos primeiros dias, minha Baixinha foi tomada pela doença e tivemos de voltar, como náufragos, ao Brasil.

Mas Roma é eterna. Sim, as grandes cidades são eternas. Mas em Roma a sensação de eternidade está em todas as esquinas. Mortais somos nós. Não descarto, antes de partir, a ventura de um dia viver Roma.