¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, dezembro 10, 2007
 
MINHAS CIDADES DILETAS - BARCELONA



Madri, Paris e Roma, para começar. A quarta cidade que eu escolheria para viver é Barcelona. Antes de prosseguir, mais um critério personalíssimo. Cidade boa há de ter pelo menos um milhão de habitantes. Se tiver dois ou três milhões, melhor. Quanto mais habitantes, mais opções, mais lazer, mais culinária, mais intercâmbios culturais, mais universidade e mais universitários, mais editoras e livrarias e melhor imprensa. Adoro Toledo, mas depois de uma semana estaria entediado como uma ostra. Barcelona tem 1,6 milhão de habitantes, é a segunda cidade mais povoada da Espanha e a décima da Europa.

As primeiras impressões marcam definitivamente. A cidade pela qual fiz minha primeira entrada na Europa foi Barcelona. Já contei, mas vou contar de novo. Mal pisei em terra, uma espanhola linda como imaginamos que seja uma espanhola, saudou-me:

- Que guapo!

Não devia ser comigo, decididamente não faço o gênero. Olhei em volta, não havia mais ninguém no saguão do porto, era comigo mesmo. Não é todos os dias que um mortal é assim recebido em terra estranha, que viva la España! Atrapalhado com as malas – levava todas minhas posses, o que não era muito, mas sempre pesava um pouco – saí em busca da maldita da consigna, disposto a enfrentar a atrevida na volta. Achei onde deixar minhas malas, mas perdi a catalã. Em todo caso, os augúrios eram favoráveis, começava pisando em Barcelona com o pé direito.

Na época em que tinha medo de avião e só viajava de navio, sempre insisti em começar por um porto: Barcelona. Ao voltar, despedia-me em outro porto: Barcelona. Não voltei a ver a espanhola, tampouco as outras que encontrei me disseram “que guapo!”, por certo eram mais realistas.

Não a elegi por amor à primeira vista. O coup de foudre ocorreu, é verdade. Mas sou duro na queda e decidi primeiro conhecer outros povos e paisagens, não iria render-me sem mais nem menos a uma cidade que envia suas mais lindas filhas ao porto para dizer “que guapo!” aos forasteiros. Continuei a peregrinação em busca sei lá de quê, provavelmente de mim mesmo.

Estive próximo ao Círculo Polar Ártico e voltei ao sul. Três cidades me fascinaram na Europa naquele meu primeiro giro, Estocolmo, Paris e Barcelona. (Madri viria mais tarde). Comecei pela primeira, por gostar de desafios. Estocolmo era a mais distante, a mais cara, mais fria, mais hostil e mais estrangeira. Faço depois Paris, pensei, e na descida vou refestelar-me em Barcelona. Mas viver não é preciso e cá estou sem chegar a possuir a amada. Mas ainda não depus as armas.

Nunca acreditei em genética, quando se trata de opções culturais. Mas... após examinar várias cidades na Europa, minha filha acaba de decidir que vai morar em Barcelona. Meu amor pela cidade parece ter reencarnado nela. Tem critérios refinados, a pivetinha.

Voltei várias vezes a Barcelona, cada vez mais apaixonado. Por pequenas coisas. Por exemplo, um pequeno café no Barrio Gótico, o Mesón del Café. É quase um cubículo, consiste em uma prateleira com bebidas, um balcão e dois ou três bancos. Ao fundo, há duas mesinhas, com lugar para no máximo cinco ou seis pessoas. O ambiente todo transpira antigüidade, a história pinga das paredes. É uma impulsão doentia, dirá o leitor, mas que fazer? Mal chego em Barcelona, deixo as malas no hotel e vou direto ao Méson tomar o cafezinho inaugural. Nem livrarias ou bares interrompem a caminhada pressurosa até o café. Cumprido este ritual, estou então disponível para os demais encantos da cidade.

Já que estamos próximos da catedral, vamos à sardana. Diante de uma retreta, homens e mulheres amontoam casacos e sacolas na calçada, dão-se as mãos e dançam. A cena não deixa de ter toques buñuelescos, mas afinal estamos na Espanha. Pessoas que jamais se viram, das mais distintas nacionalidades, interrompem seus trajetos para dançar. Entra quem quer na roda. Quando se torna muito ampla, alguém puxa um grupo e forma outra roda, dentro ou fora da anterior. Em poucos minutos, várias rodas saltitam e giram em meio à multidão.

A sensação de euforia e confraternização universal que nos envolve em meio a uma sardana talvez não possa ser experimentada em nenhum outro lugar ou data. Em instantes, uma multidão amorfa de desconhecidos se transforma em um clube de velhos amigos. Condição para ser sócio: desembaraçar-se de casacos pesados e sacolas e dar as mãos ao súbito amigo que se apressa em nos estender a sua. Não sou exatamente um emotivo, mas uma sardana sempre me provoca um discreto nó na garganta. Não é todos os dias que vemos uma multidão de homens despidos de suas couraças e com armas depostas.

Março passado, fui revisitá-la. O Barrio Gotico, que estava bastante decaído em minhas primeiras visitas, está reformado e esplendoroso. A Barceloneta tem agora um passeio esplêndido à beira-mar, emendado ao Paseo de Colón, que abriga uma marina belíssima e milionária. O Hotel Rialto, onde me hospedo há mais de trinta anos, foi ampliado e tem um refeitório aconchegante em suas caves. Ficava na Calle de Fernando. Continua lá. Mas a calle, com as pretensões de autonomia da Catalunha, mudou de nome. É agora Carrer de Ferrán. Ao lado do hotel, o eterno Mi Burrito y Yo, restaurante especializado em assados. Soberbos, diga-se de passagem. As prostitutas da Calle de Boqueria e adjacências, que um dia Camilo José Cela fotografou em Izas, Rabizas y Colipoterras, não mais estão lá. Eterno também continua Los Caracoles, com seus interiores decorados com caracóis, presuntos e botas. (Bota é uma espécie de cantil de couro para se beber vinho).

Visca Catalunya!