¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, dezembro 01, 2007
 
SOBRE MINISTROS INEPTOS,
BODES E ELEFANTES




Já transcorreu mais de ano após o desfecho da crise aérea no país e o caos continua a imperar nos aeroportos. Particularmente em Congonhas, que foi transformado em shopping pela Anac. Mesmo em dias de tráfego normal, faltavam assentos para os passageiros no saguão, tomado por lojas. Hoje, se você tiver a desgraça de ter de voar, os aeroportos parecem mais ou menos vazios. Foi adotada uma solução cosmética. Os passageiros, em vez de esperar no saguão, são enviados para os aviões e esperam na pista. Novembro passado, fiquei uma hora espremido num assento antes de decolar. Tive sorte. Os jornais seguidamente nos trazem relatos de pessoas que ficam cinco, seis e mais horas torrando dentro do avião antes de partir.

Para resolver a crise, um ministro inepto foi trocado por outro não só inepto mas também fanfarrão. A primeira medida do ministro substituto, que além de inepto e fanfarrão tem bunda grande, foi determinar que as companhias aéreas abrissem mais espaço entre os assentos, para melhor acomodar o traseiro ministerial. A medida, anunciada como panacéia para a segurança dos vôos, é totalmente inviável. Pretenderá o governo brasileiro impedir a aterrissagem de aviões de empresas internacionais que se recusem a aumentar o espaço entre assentos? Empresas aéreas americanas, alemãs, espanholas, portuguesas, holandesas, suíças, kwaitianas, enfim, todas as demais empresas do Exterior, teriam de submeter-se aos caprichos do ministro de glúteos avantajados? Eh Brasil! Legislando para o mundo.

Os jornais anunciaram hoje uma nova medida, não só ridícula como também lesiva a quem tem de voar. Não bastasse o Brasil ter uma das taxas de embarque mais altas do mundo, o governo quer agora resolver a crise do setor aéreo nos aeroportos de São Paulo aumentando violentamente as tarifas aeroportuárias. Segundo documento ao qual o Estadão teve acesso, são previstos aumentos de 100% nas taxas de embarque pagas pelos passageiros e de até 1.200%, nas tarifas pagas pelas empresas.

Esta é brilhante solução encontrada pela flamante secretária da Anac, Solange Vieira, para estimular as empresas aéreas a buscarem outros aeroportos que não Congonhas e Guarulhos. Claro está que diminuir as taxas dos outros aeroportos sequer passou pelo bestunto das autoridades aeronáuticas. Segundo o Estadão, este reajuste poderá levar a um aumento de pelo menos R$ 40 para o passageiro, considerando um bilhete doméstico de ida e volta.

As companhias estrangeiras serão taxadas com o aumento de 1.204,35% da tarifa de permanência de aeronaves em Guarulhos. Como a maioria das empresas estrangeiras aterrissa de manhã em Guarulhos e decola no período da noite, o custo adicional por hora, vai variar de 3.400 a 7.800 dólares, dependendo do tipo de avião. O repasse para o passageiro, nesse caso, pode variar de 19,99 a 28,69 dólares por hora de avião parado. Se o avião ficar dez horas em solo, o aumento para o passageiro pode chegar a 287 dólares.

Você encontra facilmente bilhetes de ida-e-volta São Paulo-Buenos Aires por 265 dólares e mesmo por menos. Já pensou pagar mais 287 dólares de taxa de embarque?

Com a desfaçatez de um déspota, o ministro Nelson Jobim pretende apresentar este pacote ao Supremo Apedeuta na semana que vem. Em vez de facilitar a vida dos passageiros, o governo aproveita a crise para infernizá-la. Não só para infernizá-la, como também para enfiar mais fundo a mão no bolso de quem voa. Havia um rebanho de bodes atulhando os saguões dos aeroportos. Em vez de retirar os bodes, o governo passa a entupir os aeroportos com uma manada de elefantes.