¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

terça-feira, janeiro 15, 2008
 
COMO TORNAR UM VINHO DIVINO



Sempre desconfiei de vinhos com preços exorbitantes. Certa vez, em Verona, Itália, em um restaurante simpático e nada caro, encontrei exposta uma garrafa de vinho a onze mil dólares. A singela garrafinha equivalia ao que eu e minha mulher estávamos pagando por um mês de Europa. Suponho que estava ali para emprestar um duvidoso prestígio à casa. Ou talvez à espera de algum novo rico bobalhão. Nunca se sabe...

Na Folha de São Paulo de hoje, leio artigo do excelente Ricardo Bonalume Neto, cujo título já nos dá uma pista sobre a armadilha:

PREÇO ALTO FAZ CÉREBRO SENTIR MAIS
PRAZER COM VINHO, MOSTRA ESTUDO


Se é caro, deve ser melhor. A desculpa esfarrapada do consumista inveterado foi agora demonstrada verdadeira, pelo menos segundo reações do cérebro de 20 voluntários em um estudo nos EUA. Bastou dizer que um vinho era mais caro que outro para as "cobaias" humanas acharem que ele era mais gostoso – mesmo quando se tratava da mesmíssima bebida. Péssima notícia para os amantes do vinho, excelente para os profissionais de marketing.


Segundo a experiência, as "cobaias" degustaram cinco tipos de vinhos tintos varietais, da uva Cabernet Sauvignon, enquanto tinham seu cérebro monitorado por ressonância magnética. No aparelho de mapeamento cerebral, as áreas ativas apareciam iluminadas. Quando algo gerava prazer, luzes surgiam na região conhecida como córtex orbitofrontal medial.

Em verdade, não foram cinco, mas apenas três vinhos. Dois deles foram apresentados com seu preço real - US$ 5 e US$ 90 - e depois com preços fictícios - o mais barato ficou 900% mais caro (US$ 45); e o mais caro ficou 900% mais barato (US$ 10). O terceiro vinho, de US$ 35, foi apresentado apenas com seu preço real. As bebidas apresentadas como caras, no final, tinham recebido notas maiores mesmo que fossem baratas; mas a maior atividade cerebral indicava que havia real aumento do prazer.

Sem me pretender cientista nem dispor de aparelhos de ressonância magnética, diria que os degustadores gostaram mesmo é do status. Sempre dá mais status tomar um vinho caro do que um barato. É de supor-se que esta sensação de riqueza mexa com o tal de córtex orbitofrontal. Deve ser a mesma sensação de quem usa um falso Rolex, pelo menos antes de descobrir que é falso. Idêntica experiência, se aplicada a alimentos, certamente dará o mesmo resultado. Se a esse tipo de comensal for servido um soberbo faisão trufado por dez reais num boteco de esquina, o prato certamente não lhe estimulará o palato. Mas se pagar uma fortuna por um coelho mal assado nos Fasanos da vida, sentir-se-á sumamente gratificado.

Não por acaso, falei em coelho mal assado. Há alguns anos, para comemorar seus ganhos na Bolsa, um amigo convidou-me para uma janta no Massimo, um dos mais caros restaurantes de São Paulo, muito freqüentado por impolutos senhores como Delfim Netto, José Sarney, Zé Dirceu. É o que chamo de restaurante não para pessoas físicas, mas para pessoas jurídicas. Quem vai lá, paga com verbas de representação. Isto é, joga a conta para o contribuinte. Bom, gosto de coelho, pedi um coelho.

Na segunda garfada, tive de devolvê-lo. Mal assado, a carne tinha uma cor abominável tendendo ao gris. Sabor nenhum de coelho. O maître ficou perplexo, me pareceu que nunca tinha visto alguém devolver um prato. Foi a segunda vez que devolvi um prato em minha vida. A outra foi em Paris, em circunstâncias semelhantes. Mas pelo menos o restaurante não era metido a besta.

A notícia, como escreve Bonalume, é excelente para os profissionais de marketing. Basta elevar os preços de um vinho para torná-lo divino. Isto me lembra um dos mais belos filmes que já vi em minha vida, A Festa de Babette, de Gabriel Axel. No banquete final, aqueles pobres diabos protestantes da Jutlândia, que dos prazeres do palato jamais haviam tido notícia, não têm idéia alguma das excelências com que Babette lhes brinda. É preciso cultura e experiência de mundo para entender o banquete. Só o general Löwenhielm, acostumado às cortes européias, consegue identificar a caille en sarcophage, o blinis Demidoff, o Clos Vougeot 1845.

Ali não está em jogo o preço das coisas. O banquete é fruto da generosidade de Babette. Gastronomia, como toda arte, exige cultura para ser degustada. Last but not least, quero registrar um lapso do roteirista que me parece imperdoável em tão belo filme. Naquele fim de mundo das estepes danesas, o general Löwenhielm não demonstra curiosidade alguma em conhecer a soberba cozinheira, humildemente escondida atrás do outro lado da parede da sala.