¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, janeiro 12, 2008
 
FOLHA ENTREVISTA GENERAL
RUSSO DESMEMORIADO




Na Folha de São Paulo que circula amanhã, há uma entrevista de Igor Gielow, enviado especial a Moscou, com um general russo aposentado, Nikolai Sergeievitch Leonov, 79 anos, que parece estar sofrendo de problemas de memória. Lá pelas tantas, o general, que se pretende “ex-número dois da KGB”, declara: “Em 35 anos de trabalho na inteligência, nunca ouvi nada sobre apoio com dinheiro ou armas a movimentos comunistas no Brasil”.

Ora, ora. Seria interessante saber perguntar-se quem financiou a entrada de Luís Carlos Prestes e Olga Benário no Brasil, que chegaram em 1935, como marido e mulher, na praia do Campeche, em Santa Catarina, vindos de Moscou. Seria interessante também perguntarmos quem financiou os apparatchiks Arthur Ernst Ewert, alemão também conhecido como Harry Berger, o argentino Rodolfo Ghioldi, o belga Jules Léon Vallée, o norte-americano Victor Alen Barron e o ucraniano Pavel Stuchevski, que foram enviados ao Brasil para assessorar o assalto ao poder de 1935.

Para refrescar a memória do decrépito general, seria interessante remetê-lo à leitura de Camaradas, de William Waack, que fez suas pesquisas em arquivos de Moscou:

As operações do Komintern foram financiadas por caixa separado, e a maneira de fazer o dinheiro chegar às mãos do chefe do Bureau Sul-Americano era tão prosaica quanto simples e eficiente. Telegrafavam-se remessas urgentes a endereços de firma ou pessoas “testas-de-ferro’. O fluxo “normal” seguia por uma rede de mensageiros montada a partir da Europa Ocidental. Na pasta, contendo parte da correspondência secreta de Piatniski, podem-se ler exemplos como este:

(...) Carta a Codovilla. Sem relatório referente a janeiro/maio recebido. 1) Enviamos em fevereiro para o BSA: a) o resto de fevereiro, 644 dólares; b) repondo o resto, 1300 dólares para o BSA. Partido Comunista Brasileiro, para as eleições, 1538 dólares. Para janeiro e fevereiro, 426 dólares.

Com letra redonda e caprichada, Piatniski acrescentou outra informação a Codovilla: para o PCB, Moscou havia pago, a cada tgrimestre de 1929, a quantia de 240 dólares. O que se nota de imediato nesses telegramas é o fato de que mesmo a utilização do “ouro” já vinha determinada por Moscou. Meticuloso e perseverante, Piatniski reclamou de Guralski, meses mais tarde, uma prestação de contas para o ano de 1930, e para ajudar o “ajuste de contas” mandou para Buenos Aires, por telegrama cifrado, sua própria demonstração de remessas de dinheiro para o Bureau Sul-Americano:

Envio pelo quarto trimestre de 1930: para a Argentina, 832 dólares; para o Brasil, 569 dólares; para o Bureau, 1920 dólares; e para o Chile, 991 dólares.


É bom lembrar que estes valores em dólares se referem ao ano de 1930. Seja como for, o desmemoriado general Leonov logo adiante se contradiz: “Sim, havia dinheiro para os PCs de todo mundo”. Ora, se havia dinheiro para todos os PCs do mundo, havia também para o PCB.

A mentira tem pernas perguntas. O deplorável nisto tudo é constatar que o repórter da Folha não teve a presença de espírito de explorar as contradições do general desmemoriado.