¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, janeiro 01, 2008
 
FRANÇA PROÍBE DEFINITIVAMENTE
ANCESTRAIS PRÁTICAS INDÍGENAS




Os defensores incondicionais das civilizações primitivas perderam hoje mais alguns pontos na Europa. A França proibiu definitivamente a ancestral prática dos indígenas da América do Sul, importada por Jean Nicot, o tabagismo. A partir da meia-noite passada, foi oficialmente proibido fumar em todos os bares, restaurantes, discotecas e cassinos do país. Um sursis foi concedido ao dia de hoje, 01 de janeiro, para que os tabagistas se permitam uma última baforada. Hoje, não houve fiscalização da nova restrição. Amanhã começa a linha dura.

A Alemanha tomou medidas semelhantes. A partir de hoje, o consumo de tabaco foi proibido em todos os lugares públicos, especialmente bares, restaurantes e boates, em oito dos 16 Estados federais (Länder) da Alemanha. Com uma certa flexibilidade: será permitido manter uma zona reservada aos fumantes totalmente separada da área para não-fumantes. Na Baviera, sul da Alemanha, a proibição é total. Na França, restará aos fumantes um certo espaço, que os isolará como leprosos: será permitido fumar em fumodrómos especiais, equipados com dispositivos de extração de ar e portas que se fecham automaticamente. Mas nenhum serviço será autorizado nestes locais e nenhum empregado pode neles entrar no local até uma hora depois da saída do último fumante.

A Europa tornou-se um continente desconfortável para fumantes. O cigarro já está total ou parcialmente proibido em 27 países. Até dois ou três anos atrás, os trens reservavam um vagão para os chupadores de câncer. Agora, não mais. Nas gares, tampouco se pode fumar. Alguns aeroportos ainda oferecem um minigulag para uso dos pestilentos, mas isto também tende a desaparecer.

O pior é que o velho continente está se tornando desconfortável também para não-fumantes. Viajei com duas amigas, em fevereiro passado, pela Espanha, França, Holanda e Bélgica. De certa forma, até eu – que jamais fumei – passei por alguns desconfortos. De uns vinte anos para cá, tenho viajado fundamentalmente para curtir cafés e restaurantes. (As visitas a museus e bibliotecas foram um desvario de juventude). As terrasses – a parte externa dos cafés – são lindas e acolhedoras, é verdade. Mas prefiro os interiores, com suas madeiras e mármores, lustres solenes e espelhos.

Em Bruxelas, hospedei-me no relativamente caro Metrópole, só para curtir o café do hotel, certamente um dos mais lindos da Europa. Mal me instalo com meus jornais sob aqueles candelabros magníficos caindo do teto, minhas companheiras me chamaram para a terrasse. Queriam fumar. Que fossem. Eu não iria renunciar àquele útero aconchegante do café. A história se repetiu mais tarde em Paris e Madri. Lembro que na gare de Amsterdã, mal saíram do trem, minhas companheiras puxaram seus pitos. A estação é imensa e é sempre percorrida por milhares de pessoas. Como que surgido do nada, um policial enorme as abordou: “Apaguem”. E tiveram a sorte de não serem multadas.

Os fumantes, aos quais ninguém obrigou a fumar, se queixam de foram induzidos a fumar pela publicidade. Recentemente, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) condenou a Souza Cruz a indenizar em R$ 490 mil a família de um ex-fumante. A decisão é do 3º Grupo Cível do Tribunal. Pela sentença, a viúva e os cinco filhos de Vitorino Mattiazzi vão receber R$ 70 mil cada um, enquanto que os dois netos vão receber R$ 35 mil cada um. Mattiazzi morreu aos 61 anos em 2001, vítima de câncer no pulmão.

“Tratou-se de uma situação em que a requerida pôs a venda um produto reconhecidamente nocivo à saúde, sem informar adequadamente o consumidor a respeito dos riscos inerentes à mercadoria, entre os quais, se incluem a dependência química e a probabilidade de desenvolvimento de várias moléstias”, disse o desembargador Ubirajara Mach de Oliveira, que julgou o caso. Ora, como se alguém neste século passado não soubesse que o fumo produz câncer.

Disse ainda o desembargador que o fumante não podia ser responsabilizado pelo consumo. Isso porque os atos da vítima, com o uso do cigarro, eram motivados pelo vício e não mais pela vontade própria. O argumento não procede. Assim sendo, qualquer pessoa que alimenta um vício letal não mais é responsável pela própria morte. Curiosamente, ainda não ocorreu a nossos magistrados responsabilizar os traficantes pelas mortes produzidas pela cocaína. A Souza Cruz recorreu e me consta que foi absolvida.

Esta queixa dos fumantes é cantiga para ninar pardais, como dizem os lusos. Tenho lido que atores e roteiristas de Hollywood eram pagos para divulgar o hábito em seus filmes. Ora, me criei entre fumantes, passei minha adolescência vendo filmes em que tanto mocinho como bandidos fumavam como chaminés. Nunca me ocorreu fumar. Certa vez, ainda na escola primária, as professoras montaram uma peça onde nós, pivetes, fazíamos o papel de gaúchos. Permitiu-se então fumar. Botei um cigarro na boca, não gostei e o joguei pela janela. Foi a primeira e última tragada de minha vida.

Não me desagrada a idéia de ver uma Europa livre do cigarro. O problema será encontrar companheiras de viagem que não fumem. O que talvez não seja exatamente um problema. Todos os dias vejo alguém deixando de fumar.

O tabagismo é a vingança do índio contra o colonizador. Nestes dias em que a defesa das culturas indígenas virou moda, jornalista algum ousa lembrar que o mal que hoje dizima milhões de pessoas com câncer, enfisema e doenças coronarianas é a herança mais difundida que os bugres nos deixaram.