¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

quarta-feira, janeiro 02, 2008
 
FUMANTES FUMAM PORQUE QUEREM



Meu caro Renan:

se a Justiça conceder indenizações milionárias a quem morre por decorrências do tabagismo, está resolvido o problema de distribuição de renda no Brasil. Como quem fuma, hoje, de modo geral são os pobres, todo cidadão desprovido de recursos sempre poderia deixar um bom pecúlio aos seus familiares. Imagino que não poucos raciocinariam assim: "já que todos, mais dia menos dia acabamos morrendo, vou fumar e deixar minha família em boa situação". É uma maneira de otimizar a morte, muito utilizada pelos homens-bomba do Islã.

Considerando-se que álcool também mata - e beber quase todo mundo bebe - as mortes em decorrência da bebida também deveriam ser indenizadas. Em poucas décadas teríamos um Brasil homogêneo, sem grandes desníveis sociais - e isso dispensando o custo sangrento de uma revolução.

Não, fumantes não merecem indenização alguma por fumar. Fumam porque querem. Ou então livre arbítrio não existe. Se não se sabia dos malefícios do cigarro e de fumar em toda sua extensão até 1953, alguma coisa deveria se saber, pois cigarro matou e aleijou desde sempre. Impossível que fumantes inveterados não tenham estabelecido alguma relação de causa e efeito. Não é preciso ser cientista para concluir que alguma coisa que ingiro me provoca tosse e dificuldades de respirar. No caso que citei, o cidadão em questão morreu em 2001, aos 61 anos. Ou seja, de 53 para cá, teve muito tempo para informar-se sobre a nicotina. Que mais não seja, acho que toda pessoa deve ter o sagrado direito de escolher a sua morte e mesmo de suicidar-se.

Em fevereiro passado, assisti a uma cena em Paris que me desnorteou. Um velhote francês, carregando um tubo de oxigênio nessas rodinhas de carregar malas, e respirando com auxílio do tubo, entrou numa tabacaria e pediu dois maços do mais venenoso mata-ratos francês, o Gitanes. Queria morrer mesmo. Raciocinando melhor, acabei por entendê-lo. Se a morte era inevitável e estava próxima, por que não permitir-se alguns prazeres finais? Já vi cirrótico morrer bebendo, a meu lado, em meu boteco, e não lhe nego bom senso. Afinal, ia morrer mesmo.

Há muita hipocrisia na política e legislação. José Serra, ex-ministro da Saúde e responsável por campanhas contra o tabagismo, quando esteve em campanha política em Santa Cruz defendeu a indústria tabagista. Souza Cruz sempre rende votos. Ora, quando um ministro da Saúde defende o tabaco, melhor fariam os juízes se condenassem o ministro a alguns anos de cadeia. Enquanto um ministro da Saúde defende a indústria do cigarros, os maços trazem alertas escabrosos sobre as conseqüências do fumar. Ora, essa gente pretende convencer quem dos males do fumo?

Se o tabaco é uma droga legal e importante fonte de tributos no Brasil, não vejo porque indenizar quem morre fumando. Deveria ser condecorado com uma comenda, algo como Contribuinte Emérito, digamos. Se os juízes têm a firme convicção de que o tabaco mata, que o proíbam de vez. Por outro lado, já seria hora de cobrar indenizações dos narcotraficantes pelas mortes produzidas pelas drogas ilícitas.

Quanto a mentir para vender um produto, isto chama-se publicidade. Publicidade sempre mente. Mente para vender cigarros, mente para vender uísque, mente para vender carros. Desconheço publicidade que não minta. Se você o fuma o cigarro tal, se bebe o uísque X, se dirige o carro Y, você automaticamente se torna jovem e belo e vê-se cercado de lindas mulheres. Ora, é preciso ser muito panaca para acreditar em publicidade.

Last but not least, não sei de onde tiraste que vejo novelas da Globo. Algum noticiário à parte, não vejo televisão nacional. (Enfim, de vez em quando dou uma olhadela nos programas evangélicos, para informar-me sobre o nível da estupidez que assola o país). Às vezes acabo sabendo de algo que rola nas novelas por notícias da imprensa escrita. Pois nos dias que correm, os jornais acham tão importante noticiar a morte da Benazir Buttho como a morte de um personagem de novela.

Abraço e bom 2008!