¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, janeiro 07, 2008
 
NÃO VERÁS MESMO!



Só no ano passado, recebi seis telefonemas de falsos seqüestros. De anos anteriores, já nem lembro. Começam com um indefectível “paiê”, com um ar angustiado. Ocorrem em geral por volta de meia-noite. Mando-os para onde merecem. Outro dia, resolvi dar corda:

- Fala, filho!
- Me seqüestraram, paiê! Querem grana.
- Tá falando em celular, filho?
- Tô, pai!
- Então dobra, meu filho. E enfia...

Acho inacreditável que ainda haja pessoas que caiam nesse conto. Nestes dias em que todo mundo – exceto apenas eu, talvez – está munido de celular, bastaria um telefonema ao filho para checar se está seqüestrado ou não. As vítimas deste golpe são tão estúpidas, que já aconteceu chantagearam um pai dizendo ter seu filho seqüestrado, ao mesmo tempo em que chantageavam o filho dizendo estar o pai seqüestrado. Me consta que ambos caíram neste primaríssimo conto do vigário.

Cientes da total impunidade de que gozam, a bandidagem nem se preocupa em esconder-se. Telefonam a cobrar. Marco a hora exata e quando chega a conta, confiro. Tenho todos os números que me chamaram. A maioria procede de São Paulo. Em segundo lugar, Rio de Janeiro. Mas já recebi anúncios de seqüestros de Recife. Pelo que se sabe, estes chamados procedem geralmente de presídios. Comunicar estes números à polícia? Nem me passa pela cabeça. Seria pura perda de tempo. Nunca ouvi falar de um presidiário que tenha sua pena aumentada por uso indevido de telefone.

Todos os meses, 900 celulares são apreendidos em presídios de São Paulo – diz hoje em entrevista ao Estadão o secretário da Administração Penitenciária, Antonio Ferreira Pinto, o xerife das cadeias no Estado. Percorro a reportagem de ponta a ponta, para saber se alguém foi punido. Nada. Punição alguma. Para o xerife, impedir a entrada desses aparelhos nas celas é seu “grande desafio. A maior arma dentro da prisão é o celular. É o contato fácil e imediato com o mundo exterior”.

Celular nos presídios é mais um fenômeno da categoria jaboticaba: só dá no Brasil. Leio jornais de diversos países, leio os despachos das agências noticiosas e nunca ouvi falar disso em outros países. Como exceção, talvez ocorra. Mas 900 celulares apreendidos por mês, disso não tenho notícias.

As soluções são simplórias, ao alcance do entendimento de um analfabeto. Duas são as vias de acesso aos celulares. Os agentes penitenciários e as mulheres que visitam os presos. Basta então eliminar todo contato entre agentes penitenciários e presidiários e acabar com essa piada de visitas íntimas. Cadeia não é motel.

Claro que no dia seguinte padres e ativistas dos tais de direitos humanos estariam chiando contra o Estado autoritário, que impede a humana necessidade de expressão dos coitadinhos dos excluídos. Ou seja, o xerife que desista de tentar coibir os celulares. Quando a legislação e grupos sociais tomam a defesa de criminosos, não há como extirpar a criminalidade.

Enquanto isso, os líderes da bandidagem encontraram o melhor e mais seguro lugar do mundo para coordenar o crime, o próprio presídio.

“Ama, com fé e orgulho a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este!”