¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, janeiro 21, 2008
 
O PODER DAS PRECES



Escreve-me um leitor: "Tu não podes negar o bem que orações fazem ao espírito dos que crêem. Infelizmente, eu gostaria de ser mais créu (sic!) para ter este benefício".

Isso de que orações fazem bem é piada de uma corja de crentes, a Fundação Templeton, dos Estados Unidos. Eles fizeram uma experiência que custou 2,4 milhões de dólares, liderada por um certo dr. Herbert Benson, cardiologista do Mind/Body Medical Institut, citado num material da Templeton como alguém que acreditava "que estão se acumulando as evidências da eficácia das preces intercessórias no cenário médico". Só que o tiro saiu pela culatra.

Foram monitorados 1802 pacientes em seis hospitais. Todos haviam sido submetidos a cirurgias de pontes de safena e/ou mamária. Os pacientes foram divididos em três grupos. O grupo 1 recebeu preces, mas não sabia disso. O grupo 2 não recebeu preces e não sabia disso. O grupo 3 recebeu preces e sabia que estava recebendo. A comparação entre o grupo 1 e 2 testou a eficácia das preces intercessórias. O grupo 3testou os possíveis efeitos psicossomáticos de saber que estava sendo alvo de preces.

As preces foram feitas pelas congregações de três igrejas, uma em Minnesota, uma em Massachussets e uma no Missouri., todas distantes dos três hospitais. Os autores das preces receberam o primeiro nome e a primeira letra do sobrenome de cada paciente por quem deveriam rezar. Os resultados foram publicados no American Heart Journal de abril de 2006. Não houve diferença entre os os pacientes que foram alvo de preces e os que não foram. Houve, no entanto, diferença entre aqueles que sabiam que estavam recebendo preces e aqueles que não sabiam se estavam ou não estavam; mas ela foi para a direção errada. Aqueles que sabiam ser beneficiários de preces sofreram um número significativamente maior de complicações do que aqueles que não sabiam.

Estaria Deus contra-atacando, para mostrar sua desaprovação pela estranha empreitada? Parece mais provável que os pacientes que sabiam que estavam sendo alvo de preces tenham sofrido um estresse adicional em conseqüência disso: "ansiedade de desempenho", nas palavras dos autores da experiência. Um dos pesquisadores, dr. Charles Betea, disse: "Isso pode tê-los deixado inseguros e se perguntando: será que estou tão doente que eles tiveram de convocar a equipe de oração?"

Estou citando Richard Dawkins, em The God delusion, recentemente traduzido no Brasil, com o título de Deus - um delírio. O autor se pergunta: na sociedade litigiosa de hoje, seria querer demais achar que aqueles pacientes que tiveram complicações cardíacas, em conseqüência do fato de saber que estavam recebendo preces experimentais, possam entrar na justiça com uma ação coletiva contra a Fundação Templeton?