¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, janeiro 10, 2008
 
PORQUE VOLTEI



Leitores me perguntam porque voltei da Europa, se a toda hora vivo manifestando meu apreço pela Europa. Voltei por várias razões. Em primeiro lugar, no Brasil vivia a mulher que eu queria. Uma mulher que eu não trocava por todas as riquezas do mundo. Um continente não vale uma mulher querida. Todo país é lindo quando nele existe alguém a quem amamos. (Enfim, não exageremos. Não estou falando de Uganda nem Zaire).

Em segundo lugar, na Europa eu seria sempre estrangeiro. A cada vez que criticasse uma instituição européia, não faltaria quem me dissesse: “e porque não voltas para teu país?” É pergunta para a qual não há como responder satisfatoriamente. Não suporto a idéia de ser cidadão de segunda classe em lugar algum do mundo.

Em terceiro lugar, o preço do metro quadrado na Europa. Aqui em São Paulo, moro em bairro nobre, disponho de um apartamento com 120 m2. É um bom espaço. Se o vendesse e juntasse mais algumas economias, não conseguiria nem 30 m2 em Paris. Não teria espaço nem pra minha biblioteca. Então, prefiro viver confortavelmente em São Paulo e revisitar a cada ano as cidades que adoro.

Em quarto lugar, o Brasil é um país que dá pra voltar e viver. Não é nenhuma Rwanda ou Quênia. Os exilados de 64, que só pretendiam voltar de metralhadora em punho e para tomar o poder, voltaram com o rabo entre as pernas quando um general concedeu-lhes anistia. Voltaram chorando. Passado é forte. Após meus quatro anos de Paris, quando desembarquei no Galeão e ouvi aqueles sons já quase esquecidos do português, devo confessar que fui acometido pelo famoso nó na garganta.

A Internet nos coloca no mundo, não estamos mais isolados como nos anos 70, quando até carga pra caneta eu tinha de buscar na Europa. Antes que o parisiense vá comprar sua baguete e seu jornal, eu já li o Monde no computador. Tenho em minha tela qualquer jornal da Europa. Tenho acesso a óperas e boa literatura, num clique de mouse. Se é isso que me agrada na Europa e se posso ter isso aqui em casa, então tudo bem.

Me fazem falta os cafés, é verdade. E a culinária. E a arquitetura. Mas isso desconto numa viagem. Visitar a Europa tem seus encantos. Meu primeiro dilema do dia é saber em qual café vou tomar uma cerveja. O segundo, onde vou almoçar. O terceiro, onde vou jantar. Morar já implica certos aborrecimentos. Ter consciência de que árabes e africanos estão tomando conta das capitais européias. De que há bairros, em minha cidade, que já não posso percorrer. Ter de lidar com a burocracia da polícia. Irritar-me com a política nacional. Turista, sou poupado destas preocupações.

Morar no Brasil, por outro lado, significa a humilhação de ter como presidente um analfabeto e tudo que o analfabeto significa. Mas abstraí. Já nem ligo. Se ganhar um terceiro mandato, tanto faz. Ele não mexe em meu pequeno e prazeroso universo.

Meus amigos, hoje, estão em sua maioria em São Paulo. Outros, esparramados em Florianópolis, Porto Alegre, Santa Maria e Dom Pedrito. Amigos são patrimônio de difícil e demorada aquisição, que não pode ser jogado fora. Minhas amigas e minha filha também estão aqui. Idem minha biblioteca. Da gastronomia, não me queixo. Depois de Collor, tenho à minha disposição desde vinhos até arrozes que antes estavam fora do alcance de quem não fosse rico. Tenho acesso à informação que quero e que necessito. Nestes dias de Internet, não é preciso ir à Europa para respirar melhor. Não consegui ainda terminar de ler os livros da penúltima viagem. Música sofisticada é o que não falta aqui em casa. Vivendo no Brasil, tenho grana para viajar para qualquer parte do mundo. Vivesse em Paris ou Madri, não teria. Ficaria prisioneiro da cidade.

O homem é o homem e suas circunstâncias, dizia Ortega y Gasset. Minhas circunstâncias são estas e são ótimas. Em qualquer capital européia não me sobraria dinheiro pra curtir o mundo. Então, fico aqui.

Como disse, apenas uma coisa me impede de viver lá. O preço do metro quadrado. Se tivesse dinheiro suficiente para morar confortavelmente em Paris ou Madri, é claro que não estaria aqui. Mas não tenho. E viver precariamente na Europa não tem muita graça.