¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, janeiro 13, 2008
 
RIDÍCULOS FANTASMAS
DE UM SÉCULO ESTÚPIDO




“Não se nasce mulher. Torna-se”. Esta frase idiota, que fere o mais elementar bom-senso, constituiu dogma para multidões nos anos 60, 70 e 80, e não é duvidar que até hoje exista ainda quem acredite nas bobagens escritas por Simone de Beauvoir. Os jornais comemoram hoje, sem muito entusiasmo, é verdade, seu centenário de nascimento.

Guru de várias gerações, la Beauvoir não deixou de ter seus méritos, ao reivindicar iguais direitos para homens e mulheres. Verdade que a obra de Simone serviu para liberar muitas mulheres do ranço religioso. Em meus dias de universitário, quando estávamos assediando uma colega, o presente mais eficaz era O Segundo Sexo. As meninas cediam mais facilmente a nossos avanços, quando guiadas por Simone. Isso no snobíssimo universo universitário. Porque no dia-a-dia, no universo das enfermeiras, balconistas, empregadinhas, daquelas moças que nunca haviam ouvido falar de mulher-objeto, tudo era mais fácil. Nenhuma delas precisava de ideologia para entregar-se ao bem-bom da vida.

O doentio de sua doutrina era não ver maiores diferenças entre um sexo e outro. Em O Segundo Sexo, lemos: “A verdadeira mulher é um produto artificial que a civilização fabrica como outrora se fabricavam os castrati. Seus pretensos instintos de coqueteria, de docilidade, lhe são insuflados como ao homem é insuflado o orgulho fálico”. É espantoso que semelhante disparate tenha sido levado a sério por décadas e, sobretudo, por universitárias.

Orgulhar-se do próprio falo – e por que não? – tornou-se um pecado de lesa-humanidade. Orgulhar-se da feminilidade também. Simone propunha uma espécie de ser assexuado. Uma de suas discípulas chegou a dizer-me certa vez: “Tu não me penetraste. Na relação sexual não há penetração, apenas um mútuo roçar de mucosas”. Um século precisa ser muito estúpido para reverenciar semelhante estupidez.

O século foi assim. Sartre foi aclamado com entusiasmo quando, ao voltar da União Soviética, deu entrevista ao Libération alertando que a França, caso não mudasse de rumos, em cinco anos, no mais tardar, seria ultrapassada pela URSS. A única mudança de rumos, evidentemente, era seguir o caminho do socialismo. Ambos defendiam incondicionalmente o marxismo, o stalinismo, o maoísmo e contemplaram deslumbrados Fidel Castro.

Sic transit gloria mundi. Hoje não passam de ridículos fantasmas de um século estúpido.