¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, janeiro 09, 2008
 
SAUDADES DO BONIFÁCIO



A Espanha atual está sendo palco de um ataque do Vaticano, que no fundo não passa de uma tentativa da Igreja de recuperar seus poderes soberanos sobre a Europa. Vã pretensão do Bento, diga-se de passagem. Leio no El País que neste domingo passado Bento XVI defendeu, em conexão direta de Roma, diante de fiéis reunidos em Madri, que a família "fundada na união indissolúvel entre um homem e uma mulher, constitui o âmbito privilegiado em que a vida humana é acolhida, desde seu início até seu fim natural".

Espírito de síntese admirável. Em uma pequena frase, quatro anátemas. A condenação política do governo espanhol: nada de divórcio nem de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nem aborto nem eutanásia. Este papa, saudoso dos tempos medievais, deve lembrar com nostalgia os bons tempos aqueles de 1706, quando Gregório VII excomungou o imperador Henrique IV e o depôs de seu cargo. Em 1707, em Canossa, humilhado, Henrique IV ficou na neve do lado de fora da residência papal, pedindo perdão.

Bento XVI é useiro e vezeiro em interferir na administração e legislação de países, em nome de sua concepção universal de comportamentos humanos. Desde que empunhou o cajado de Pedro, tem-se comportado como o representante na Terra de um deus único e dono de todas as verdades. Assim sendo, a humanidade toda deve submeter-se ao cetro de Roma.

Segundo F. E. Peters, autor de Os Monoteístas, este vício começou em Soissons, França, em 750, quando um legado papal ungiu, com plena aprovação do papa, um novo rei dos francos – Pepino, filho de Carlos Martel – à maneira da sagração de um bispo. “Por este ato papal, a noção de um rei teocrático divinamente ordenado foi introduzida na tradição ocidental de soberania”. Porém o fato mais grave ocorreu em 800, quando o papa Leão III coroou Carlos Magno, não como rei, mas como imperador. Não em Soissons, mas em São Pedro, Roma. Ora, se o papa coroava, o papa descoroava. A humilhação de Henrique IV em 1707 decorre da submissão do poder laico à Igreja de Roma em 750.

Mas o que Sua Santidade deve lembrar com saudades mesmo é a bula Unam Sanctam, de 1302, onde Bonifácio VIII declarava em mensagem dirigida a Felipe IV, da França:

“Declaramos, afirmamos e definimos como verdade necessária para a salvação que todo ser humano deve sujeitar-se ao romano Pontífice”.