¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, janeiro 12, 2008
 
SOBRE A VOLTA


De um leitor sensato, recebo:

Prezado Janer,

Saudações,

Gostei muito, mas muito mesmo, de seu texto "Porque voltei". Nos anos de 2005 e 2006, eu e minha esposa estávamos planejando viver na Europa. Somos ambos cidadãos italianos, e pensávamos em fazer uso de nossa dupla nacionalidade para fugir daqui, principalmente após a vitória do Lula em 2006. No entanto, os mesmos argumentos que você usou em seu texto passaram pelas nossas cabeças. Teríamos de viver certamente em alguma moradia menor do que a nossa atual, e com certeza nosso padrão de vida não seria muito superior ao que hoje possuímos. Além disso, possivelmente seríamos vistos como estrangeiros sulamericanos pelos europeus, e como europeus pelos árabes e africanos que lá vivem. Já em 2005 eu lia seus textos, e refletia sobre eles, principalmente aqueles em que você aconselhava os leitores a visitar a Europa "antes que ela acabe". Se no Brasil a situação costuma piorar, e se na Europa ocorre o mesmo, então enfrentamos o clássico dilema: "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Então, ficamos e enfrentamos o bicho.

O parágrafo sobre a possibilidade de se viver no Brasil em um mundo particular, sem se incomodar com o Lula ("Morar no Brasil, por outro lado, significa a humilhação de ter como presidente um analfabeto e tudo que o analfabeto significa. Mas abstraí. Já nem ligo. Se ganhar um terceiro mandato, tanto faz. Ele não mexe em meu pequeno e prazeroso universo."), sintetizou de forma perfeita o que pensamos hoje.

Obrigado e um grande abraço,

Humberto Quaglio


Pois, Quaglio, se alguma vantagem há em morar no Terceiro Mundo, esta é o custo de vida mais barato. Não digo quanto ao comer, sempre há como comer barato nas grandes metropóles. Mas quanto ao habitar. Uma amiga que vive em Paris acaba de comprar um pequeno apartamento (55m2) na Normandia. Duzentos mil euros. Ora, com esse montante se compra um apartamento de altíssimo padrão em São Paulo.

Eu me acostumei aos pequenos espaços, quando vivia na França. Meu apartamento tinha 47 metros quadrados. O que não é pouco espaço para Paris. Para mim e minha mulher ficava quase apertado. Mas tínhamos consciência que estávamos de passagem. Quem passou por esta experiência adquiriu habilidade em aproveitar cada centímetro quadrado do apartamento. Dadas as condições de habitação em Paris, eu diria que uma pessoa solteira deve dar-se por feliz se dispuser de 30m2.

Em Madri é mais barato residir, mas ainda assim caro para os níveis salariais brasileiros. Em Lisboa, já foi relativamente barato. Com o lifting da cidade, graças aos subsídios da Comunidade Européia, Lisboa se tornou objeto de desejo dos hiperbóreos. Escandinavos e alemães estão comprando imóveis por lá e esta busca inflaciona o preço do metro quadrado.

Para nós, que não somos ricos, melhor Brasil.