¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, janeiro 14, 2008
 
TALAK POR CELULAR



Já comentei várias vezes a chamada lei dos três talaks (repúdio). É o divórcio ao estilo muçulmano. Pronunciado três vezes o repúdio pelo marido, a mulher está divorciada. Claro que o inverso é inimaginável. Mulher vale sempre metade no Islã. Se o Corão reconhece às mulheres o direito à herança, os doutores da lei decidiram que a mulher só pode receber metade da parte devida ao homem. O testemunho de um homem vale pelo testemunho de duas mulheres. Um homem pode ter quatro mulheres. A mulher, um homem só.

Em março passado, comentei uma versão mais ágil do divórcio árabe. Uma professora de Literatura em Genova, casada em segundo matrimônio com um marroquino, descobriu-se divorciada por celular. Recebeu um singelo SMS com a mensagem: EU TE REPUDIO, EU TE REPUDIO, EU TE REPUDIO. O divórcio estava consumado. Em 2006, um tribunal de Manila, Filipinas, reconheceu que o direito dos maridos ao divórcio se poderá efetivar via SMS. A tecnologia unida à barbárie torna tudo mais rápido.

Agora aconteceu no Egito. Há duas semanas, Abul Naser perdeu uma chamada de seu marido. Logo recebeu uma mensagem SMS que dizia textualmente: “Te repudio porque não respondeste a teu esposo”. Não era a primeira vez. O marido já havia pronunciado o repúdio duas outras vezes.

Abul Naser, uma engenheira que vive no Cairo, não hesitou um segundo e se dirigiu a um tribunal de família para conhecer sua situação depois do SMS. Seria ainda uma mulher casada? Ou o divórcio por celular teria validade legal? Embora o Egito tenha um código civil, o direito de família é administrado de acordo com a comunidade à qual pertence cada um. Se o tribunal valida a decisão do homem, será o primeiro caso de divórcio por celular no Egito.

Quanto às Filipinas, foram pioneiras. O assunto é controverso no mundo islâmico. Segundo o El País – onde colhi a notícia – o governo de Kuala Lumpur proibiu o divórcio por meios eletrônicos (SMS, fax ou email). Dois anos antes, o Conselho Religioso de Singapura decidiu que o divórcio através de SMS é inaceitável. Na Malaisia, os ulemás basearam seus argumentos nas “dúvidas que podem ser suscitadas sobre a identidade e sinceridade de quem envia a mensagem”.

Bom, verdade que tal sistema não deixa de ter seus convenientes. Elimina burocracia e advogados. Mas ai da mulher que ouse divorciar-se do marido por SMS. Divórcio, no Islã, é direito que só concerne aos machos.