¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, fevereiro 07, 2008
 
GENTALHA ABOMINÁVEL



Sob o lema “Escolhe, pois, a vida”, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou ontem sua maior ofensiva contra a proposta de legalização do aborto no País. Também estão sendo combatidas quaisquer intenções de se permitir eutanásia e pesquisas com embriões humanos.

Que a Igreja seja contra aborto, eutanásia ou pesquisas com embriões humanos é perfeitamente admissível. O que a Igreja não pode é pretender que todas as sociedades pensem da mesma forma. A Igreja um dia ameaçou com a fogueira o homem que disse não ser a Terra o centro do universo. Que a Igreja ache que a Terra é o centro do universo é um direito seu. Pode até achar que o Cristo nasceu de uma virgem e subiu aos tais de céus, que ninguém sabe onde ficam. O que a Igreja não pode é pretender que a humanidade toda participe de tais crendices.

Nossos purpurados parecem esquecer que a Igreja, durante séculos, admitiu o aborto. Que dois de seus campeões, são Tomás e santo Agostinho, eram favoráveis ao aborto. Segundo o aquinata, só haveria aborto pecaminoso quando o feto tivesse alma humana o que só aconteceria depois de o feto ter uma forma humana reconhecível. Para o Doutor Angélico, como o chamam os católicos, a chegada da alma ao corpo só ocorre no 40º dia de gravidez. A posição de Aquino sobre o assunto foi aceita pela igreja no Concílio de Viena, em 1312. Foi apenas em pleno século XIX, em 1869 mais precisamente, que o Papa Pio IX declarou que o aborto constitui um pecado em qualquer situação e em qualquer momento que se realize. O que me espanta neste debate é que não vemos, na grande imprensa, um mísero jornalista que contraponha a este episcopado analfabeto a doutrina clara dos santos da Igreja. Se os católicos se pretendem contra o aborto, deveriam começar destituindo seus santos da condição de sapiência e santidade.

Seja como for, pecado é conceito que diz respeito apenas aos crentes. A Igreja pretende hoje que o aborto seja crime. Ora, crime é o que a lei define como crime. Não é a Igreja quem elabora as leis de um Estado laico. Que a Igreja defina o que é pecado, é direito seu. Lei é outro departamento. Se no Brasil o aborto hoje é crime, não o é na Itália, França, Espanha, Alemanha, Suíça, Reino Unido, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Grécia, Portugal, Estados Unidos, Canadá, etc. E se amanhã o legislador brasileiro decidir que aborto não é crime, aborto não mais será crime. Quanto aos padres, que enfiem suas violas no saco. Brasil não é Irã ou Arábia Saudita, onde os religiosos fazem a lei.

Para dom Dimas Lara Barbosa, secretário-geral da CNBB, o aborto é questão ética e não de saúde pública. Ora, se é questão ética, é questão de cada um. Só o Direito é coercitivo. Não há sanções penais para questões éticas. Segundo o prelado, em eventual plebiscito, o povo se posicionaria contra o aborto, “se esclarecido sobre o tema com isenção e honestidade”. Mas dom Dimas não confia muito no que afirma, pois é contra a realização da consulta. “A defesa da vida é inegociável para nós. Não é minoria ou maioria que mudará um valor universal dos cristãos".

Valor universal dos cristãos? Desde quando? Desde o século XIX para cá? E se é valor universal dos cristãos, o universo é muito maior que a cristandade. Mas a campanha da CNBB não é apenas contra o plebiscito. Vai mais longe. “Está no nosso horizonte, num segundo momento, lutar para revogar a permissão legal do aborto nos casos já permitidos”, disse o aiatolá de Roma, citando o exemplo de uma santa canonizada por ter preferido morrer para permitir que o filho nascesse.

Santos são heróis da Igreja, não os nossos. Mas o pior de tudo, no obscurantismo católico, não é nem esta oposição ao aborto. E sim a recusa à eutanásia. O que pretendem estes senhores? Que um homem, exaurido pelo sofrimento, não tenha o direito de querer partir? Que não possa exercer seu direito de morrer? Que pessoas vivam anos e anos entubadas, em condição vegetal, sem poder morrer? Que os católicos legislem sobre suas próprias mortes. Nada contra. Mas que não pretendam determinar quando e como nós, não-católicos, devemos ou queremos morrer.

Abominável, esta gentalha!