¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

sábado, fevereiro 02, 2008
 
A IGUALDADE RACIAL E O
DESPILFARRO DA MINISTRA




Em meus dias de universidade, certa vez distribui um colar de zeros a minhas aluninhas. Falo assim no feminino porque quase não havia varões na aula. Eram alunas de último ano de Letras. Lá pelas tantas, uma negrinha pulou em seus tamancos e, chorando, começou a gritar:

- Racismo, professor, racismo. Eu nunca tirei zero neste curso.
- Então nunca leram tuas provas. No que dependesse de mim, tu nem entravas na universidade.

As meninas tinham um português deplorável, inadmissível em um acadêmico, e dali a alguns meses estariam lecionando na rede pública. Minha salvação foi que eu havia zerado mais treze alunas, e estas eram todas brancas. A acusação da moça não se sustentava. Se, por acaso, fosse só ela a merecer zero, certamente eu responderia processo por racismo.

Minha aluninha analfabetinha voltou-me à memória com a affaire da ex-ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Flagrada pelo uso indevido dos tais de cartões corporativos – um convite praticamente irresistível à corrupção - dona Matilde já foi exibindo a cor da pele. Em entrevista coletiva, questionada se via preconceito na cobertura da imprensa sobre o uso irregular de seu cartão, ela disse que "o histórico do Brasil não permitiu que fosse reconhecido o peso da escravidão e o peso da não inclusão de negros e negras. Isso vale para a sociedade como um todo".

O Supremo Apedeuta não deixou por menos. Disse que ela fez "um trabalho extraordinário" à frente da pasta e declarou conhecer as "imensas dificuldades, arraigadas por séculos de preconceito, que Vossa Excelência teve de enfrentar".

Matilde Ribeiro, se alguém não lembra, foi aquela senhora que declarou, no ano passado, considerar natural a discriminação dos negros contra os brancos. Em entrevista à BBC Brasil para lembrar os 200 anos da proibição do comércio de escravos pelo Império Britânico, ela disse que "não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural. Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou", afirmou na ocasião.

A frase caiu pesada nos meios de comunicação. Como era proferida por uma negra, ficou por isso mesmo. Negro pode insultar branco à vontade, não é racismo. Mas se um branco dissesse o inverso, seria imediatamente enquadrado por crime de racismo. De minha parte, até que concordo com um trecho da afirmação da ex-ministra. Não vejo porque negros tenham de gostar de conviver com brancos. Mas também não vejo porque brancos tenham de gostar de conviver com negros. O gostar não pode ser obrigatório. Respeito, sim. Mais do que isso é dogma de papistas. Uma das frases mais abomináveis da História que conheço é o “amai-vos uns aos outros”. Eu amo quem acho amável, ora bolas. E a verdade é que o mundo está cheio de pessoas detestáveis.

Entre estas, a ex-ministra. Gastou à tripa forra em transporte e restaurantes de luxo. Só no ano passado, torrou R$ 171,5 mil em viagens, todas pagas com o cartão corporativo. O que corresponde a R$ 14,3 mil mensais, valor superior ao seu salário, que é de R$ 10,7 mil. Dona Matilde encontrou uma maneira confortabilíssima de mais que duplicar seu salário. O curioso em tudo isto é que este despilfarro – como dizem os espanhóis – parece não ter causado espécie aos catões do Planalto. O que escandalizou foi uma continha de 461 merrecas em um free shop. Argent de poche.

São 42 os membros do alto escalão do governo a usarem os simpáticos cartões corporativos. Nos baixos escalões, são 11.510. Isto dá uma idéia da farra toda com o dinheiro do contribuinte. Pelo que noticiam os jornais, boa parte da gastança foi para restaurantes de luxo.

O que só confirma minha tese. São Paulo está sendo gradativamente tomada por restaurantes para pessoas jurídicas. Você é mera pessoa física e tem de pagar de seu bolso? Melhor evitá-los. Nesses restaurantes, uma mesa de cinco ou seis pessoas gasta às vezes 50 ou 60 mil reais e os comensais chegam a brigar para decidir quem paga. Afinal, quem paga é você.

Enfim, tudo muito coerente. A ministra ocupava a pasta da Igualdade Racial e sempre foi combativa agitprop dos ditos movimentos negros. Se as “elites brancas” – expressão de um mentecapto branco do governo bandeirante – se corrompem alegremente com os tais cartões, em nome da propalada Igualdade Racial, a ministra também atribuiu-se o direito de corromper-se.