¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, fevereiro 05, 2008
 
NOMENKLATURA REDIVIVA



Alguém ainda lembra da Nomenklatura? Com o desmoronamento da União Soviética, a palavrinha talvez tenha ruído junto. Era como se designava a burocracia, a casta dirigente comunista. Era composta por altos funcionários do PCUS, trabalhadores com cargos técnicos, artistas e outras pessoas que gozavam de privilégios e vantagens inacessíveis para o restante da população do país.

O conceito de Nomenklatura, em verdade, foi antecipado pelo montenegrino Milovan Djilas, em seu livro A Nova Classe. Publicado em 1957, seu ensaio fazia uma análise do sistema comunista iugoslavo, denunciando-o como um regime não igualitário, que estabelecera uma "nova classe" privilegiada do partido, que gozava de benefícios materiais a partir de suas posições. Djilas sabia do que falava: “Eu fiz todo o caminho que pode fazer um comunista, do baixo da escada até o topo, de funções locais a funções nacionais, depois internacionais, da fundação do Partido até a instauração disso que se chama sociedade socialista”. Embora se declarasse abertamente marxista, o autor fazia um requisitório contra a “nova classe”.

Djilas, que foi vice-presidente da ex-Iugoslávia, incompatibilizou-se com o presidente – isto é, ditador – do país, Josip Broz Tito. Foi expulso do governo, despojado de todas suas posições no Partido e condenado a nove anos de prisão. Após a publicação de sua obra no Ocidente, sua sentença foi aumentada.

O livro inspirou o russo Mikhail Voslenski, que em 1970 escreveu Nomenklatura, traduzido no Brasil pela editora Record, como A nomenklatura, como vivem as classes privilegiadas na União Soviética. Se você tem ainda algum interesse pelo finado comunismo, pode encontrar o livro em algum sebo. Mas se você procurar A Revolução dos Bichos, de George Orwell, que narra o nascimento de uma sociedade socialista real, terá também uma boa idéia da Nomenklatura. Este livro foi proibido em todos os países comunistas.

Segundo Voslenski, Lênin inventou a organização dos revolucionários profissionais. O apparatchik Stalin inventou a Nomenklatura. Se a invenção de Lênin foi a alavanca que lhe permitiu transformar a Rússia, ela logo entrou para o museu da Revolução. A invenção de Stalin foi o aparelho que lhe permitiu dirigir a Rússia e se revelou infinitamente mais durável. “Na língua burocrática corrente soviética, Nomenklatura significa: 1º Lista dos postos de direção de competência das autoridades superiores. 2º Lista de pessoas que ocupam esses postos ou que são mantidas na reserva para ocupá-los”.

Esta casta seria constituída, na União Soviética, por 250 mil funcionários. Levadas em conta suas famílias – mulheres, filhos, sogras, genros – teríamos três milhões de pessoas. A estes, todos os privilégios: boa moradia, datchas (casas de campo), carros, telefonia, viagens, acesso privilegiado a gêneros alimentícios, em suma, a todas aquelas coisas que tornam a vida agradável. O resto da sociedade que se lixasse.

Longe de mim afirmar que o governo Lula está tentando introduzir um regime comunista no Brasil. Lula pode ser analfabeto, mas burro não é. Esta tese de que o governo petista quer montar um sistema comunista é paranóia de um astrólogo confuso que, paradoxalmente, lidera uma caterva de católicos fundamentalistas. Se Lula tem alguma virtude, esta foi trair o ideário do PT. Por que pensar em comunismo quando se tem eleitorado até mesmo para um eventual terceiro mandato?

Por que pensar em comunismo, quando se pode utilizar seus sistemas de controle do poder, sem necessariamente aderir a um pensamento obsoleto e desprestigiado? Do comunismo, Lula e os seus preservam apenas o que lhes é mais conveniente. Os privilégios da casta dirigente. Da “classe dominante”, como os petistas então chamavam quem estava no poder.

Com os tais de cartões de crédito corporativos, a gangue petista se outorga um segundo salário. Mais gordo inclusive que o primeiro. Ou um terceiro salário: vários ministros ganham também como “conselheiros” de estatais. Isto sem falar em apartamentos funcionais, transporte pessoal garantido, seja por carro ou avião, viagens facilitadas, turismo a pretexto de trabalho e mordomias outras. Claro que disto só participam os “companheiros”.

O problema é que alguma alma estouvada teve a infeliz idéia de criar um tal de Portal da Transparência, onde os gastos com os divinos cartões são divulgados. Pior ainda: foram divulgados os gastos do Supremo Apedeuta e da filha do Supremo Apedeuta. Mas já surgiu a tese salvífica, enunciada pelo chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Félix, segundo o qual os gastos para a proteção da família presidencial não deveriam ser divulgados no incômodo Portal. Ou seja: não importa que a gastança dos quadrilheiros seja pública. O que não pode ser divulgado são os gastos do chefe da quadrilha.

A Nomenklatura soviética morreu com o regime soviético. Ressuscita, no Brasil, com o PT.