¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, fevereiro 03, 2008
 
PORQUE ADORO O CARNAVAL



Estou cada vez mais apaixonado pelo carnaval de São Paulo. É data que espero com ansiedade. Hoje, pulei o carnaval com uma amiga. Explico. Ontem, telefonei para ela:

- Que vais fazer nestes dias?
- Vou pular o carnaval. Isto é, vou pular a data. É como se não existisse.
- Maravilha. Vamos então pular juntos?

Pulamos. Passeamos hoje por uma cidade deserta, parecia Dom Pedrito num domingo chuvoso. Almoçamos em um simpático restaurante francês, também deserto. Relembramos nossos dias de Paris, discutimos francês e grego, clássico e contemporâneo, continental e cretense, analisamos as traduções de Kazantzakis ao português, repassamos uma antiga leitura de meus dias de universidade, o Quarteto de Alexandria, do Lawrence Durrel, evocamos Henry Miller e ilhas gregas, Alexandria e Corfu, rimos com as mancadas de tradutores, confrontamos as obras de Borges e Lobato, revisamos etimologias, colocamos em xeque ênclises e mesóclises.

Em suma, foi um dia daqueles que, ao chegar ao fim, nos deixa uma agradabilíssima sensação de paz interior. Não é todos os dias que encontramos pessoa sensível e culta para conversar, e hoje foi um deles. Ela é rato de sebos e voltei para casa com a promessa de um cadeau que vou gostar muito de ler, um estudo sobre os anacoretas do deserto do século IV d.C.

Carnaval? Ouvi até mesmo dizer que existe em São Paulo. Parece que acontece lá pras bandas da Paulista. É o que os jornais e a televisão me informam. Até acredito que seja verdade. Mas não vi. É divino viver numa grande cidade brasileira onde se pode ter a sensação de que carnaval não existe.

São Paulo é o túmulo do samba, dizia Vinicius de Moraes. Este, a meu ver, é um dos encantos da cidade. Meus amigos ocasionais – garçons, garçonetes, taxistas, a moça da banca de jornais, meu barbeiro – sempre me perguntam onde vou passar o carnaval. Aqui, respondo. Daqui não saio, daqui ninguém me tira, como dizia uma antiga marchinha. Ninguém me arranca de São Paulo em um carnaval. Nem em feriadões. Nessas datas a cidade adquire um ar de província, pode-se andar de bicicleta sem medo nas grandes avenidas, freqüentar aqueles bons restaurantes onde normalmente há filas de espera, curtir livrarias e cinemas sem o estorvo da multidão. O silêncio é extraordinário. Nestes dias, acordo como se estivesse no paraíso, sem ruído algum de motores. (Enfim, estou supondo que no paraíso não existam carros). Moro aqui há quase vinte anos e jamais ouvi, pelo menos em meu bairro, aquele ronco estúpido de cuícas e tamborins. Ontem começou o shabbat. Higienópolis, sem carros, parece hoje uma cidade do deserto percorrida por sisudos rabinos e aldeãs com vestes cheias de cores.

Fosse São Paulo um eterno carnaval, seria uma das cidades mais aprazíveis do mundo. Saíram ontem quase dois milhões de carros da cidade. Contando por baixo, são uns quatro milhões de paulistanos a menos. É quando a cidade se torna habitável. Conclusão que se impõe: há um excesso de quatro milhões de habitantes nesta cidade. Fariam um grande favor aos homens sensatos – sim, eles ainda existem – se ficassem no litoral pelo resto de suas vidas.

Tudo que é bom dura pouco, dizem as gentes. Mais três dias e a cidade volta à sua normalidade hostil. Só me resta esperar pelo próximo carnaval. Ou feriadão. Feriadão também é muito bom em São Paulo.

Nestes dias de paz que ainda restam, vou buscar outras amigas que também gostem de pular o carnaval. Quero pular junto.