¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, fevereiro 03, 2008
 
SIGLO VEINTE Y UNO CAMBALACHE



Em artigo para o Estadão de ontem, o advogado, professor e acadêmico Miguel Reale Júnior escreve contundente catilinária contra a mídia contemporânea, mais precisamente contra a televisão e a Internet. “O gosto do mal e o mau gosto” é o título de seu artigo.

“O horror vira espetáculo. Hoje se multiplicam as filmagens ou fotografias com celular de cenas de brutalidade contra as pessoas, para puro e simples divertimento. O enforcamento de Saddam Hussein, com o corpo balançando no vazio, correu a internet. Um site francês, “Vídeos de Decapitação”, revela Marzano, instalou fórum de discussão acerca da decapitação de Nicholas Berg no Iraque. As reações dos internautas transitaram entre o fascínio e a indiferente discussão sobre a qualidade da filmagem. A tragédia do Iraque tornou-se distração”.

Vai adiante o professor: “O Big Brother Brasil, a Baixaria Brega do Brasil, faz de todos os telespectadores voyeurs de cenas protagonizadas na realidade de uma casa ocupada por pessoas que expõem publicamente suas zonas de vida mais íntima, em busca de dinheiro e sucesso. Tentei acompanhar o programa. Suportei apenas dez minutos: o suficiente para notar que estes violadores da própria privacidade falam em péssimo português obviedades com pretenso ar pascaliano, com jeito ansioso de serem engraçadamente profundos”.

Reale Júnior suportou o Big Brother dez minutos. Me superou. Eu não consegui suportar cinco. Quanto a vídeos de decapitação, parece que estão na moda. Recebi um, com a decapitação do jornalista Daniel Pearl, no Paquistão. É de uma brutalidade insólita. Como jornalista, me sinto mais ou menos obrigado a ver tais barbaridades. Recebi também fotos dos cadáveres de presidiários - mortos por presidiários - em uma rebelião no Carandiru. Eméticas. Como também recebi fotos de hospitais de Cuba. Repelentes. Mas se você quiser entender o mundo que o cerca, é bom que veja tais fotos. Para ter uma idéia do que o ser humano é capaz. Depois, melhor deletá-las.

É curioso que o professor não arrole em seu circo de horrores os pastores televisivos. Para mim, constituem caso de polícia. Aquilo não é religião, é extorsão de pobres coitados. Tanto a televisão como a Internet têm seus momentos abomináveis. Prossegue Reale Júnior:

“Mas o público concede elevadas audiências de 35 pontos e aciona, mediante pagamento da ligação, 18 milhões de telefonemas para participar do chamado “paredão”, quando um dos protagonistas há de ser eliminado. Por sites da internet se pode saber do dia-a-dia desse reino do despudor e do mau gosto. As moças ensinam a dança do bumbum para cima. As festas abrem espaço para a sacanagem geral. Uma das moças no baile funk bebe sem parar. Embriagada, levanta a blusa, a mostrar os seios. Depois, no banheiro, se põe a fazer depilação. Uma das participantes acorda com sangue nos lençóis, a revelar ter tido menstruação durante a noite. (...) É possível conjunto mais significativo de vulgaridade chocante?”

Reale Júnior parece não ter entendido a natureza humana. Dezoito milhões de néscios telefonam, mediante pagamento da ligação, para participar do tal de paredão? Brasileiro é isso mesmo. Na França ou Alemanha não teríamos tais abominações. (O que não exclui que haja outras). Não houvesse o Big Brother, estes dezoito milhões estariam empenhados em participar de besteiróis outros, tipo carnaval ou futebol. Não vejo muita diferença entre um espectador que curte Big Brother e outro que curte futebol. O analfabetismo é o mesmo. Ou talvez haja uma: o torcedor de futebol é capaz de matar por seu time. O de Big Brother, aparentemente, não.

Seja como for, surpreendeu-me a erudição do acadêmico em matéria de baixarias. Tudo isso existe mesmo na Internet e na televisão? Acredito piamente que sim. Mas disso não tomo conhecimento. Verdade que às vezes dou uma zapeada para auscultar a imbecilidade geral do mundo. Considero isto um exercício interessante. Serve para constatarmos que o universo que nos rodeia é bastante distinto daquele que cultivamos em nossas casas. Mas não consigo me demorar muito em tais sites ou programas. Como disse, já tentei ver o Big Brother, para ter uma idéia da mediocridade nacional. Mas não consegui agüentar cinco minutos.

Tanto a televisão como a Internet não o obrigam a assistir suas baixarias. Você vê o que quer. Toda TV tem um controle, on e off. Vê TV quem quer ver TV. Vê baixaria quem quer ver baixaria. Busca sites estúpidos na Internet quem gosta de sites estúpidos. Em meus primeiros dias de internauta, confesso que os acessei. Queria ter uma idéia global da rede. Uma vez ciente do que existia na Web, não mais voltei a eles.

Melhor voltarmos a um dos mais geniais tangos já concebidos, Siglo veinte, cambalache, de Enrique Santos Discépolo. Para quem não entende espanhol: cambalache significa brechó, bric-a-brac. Nosso século, o XXI, também é cambalache.

Que el mundo fue y será una porquería,
Ya lo sé;
En el quinientos seis
Y en el dos mil también;
Que siempre ha habido chorros,
Maquiavelos y estafaos,
Contentos y amargaos,
Valores y dubles,
Pero que el siglo veinte es un despliegue
De malda' insolente
Ya no hay quien lo niegue;
Vivimos revolcaos en un merengue
Y en un mismo lodo todos manoseaos.

Hoy resulta que es lo mismo
Ser derecho que traidor,
Ignorante, sabio, chorro,
Generoso, estafador.
Todo es igual; nada es mejor;
Lo mismo un burro que un gran profesor.
No hay aplazaos, ni escalafón;
Los inmorales nos han igualao.
Si uno vive en la impostura
Y otro roba en su ambición,
Da lo mismo que si es cura,
Colchonero, rey de bastos,
Caradura o polizón.

Que falta de respeto,
Que atropello a la razón;
Cualquiera es un señor,
Cualquiera es un ladrón.
Mezclaos con stavisky,
Van don bosco y la mignón,
Don chicho y napoleón,
Carnera y san martín.
Igual que en la vidriera irrespetuosa
De los cambalaches
Se ha mezclao la vida,
Y herida por un sable sin remaches
Ves llorar la biblia contra un calefón.

Siglo veinte, cambalache
Problematico y febril;
El que no llora, no mama,
Y el que no afana es un gil.
Dale nomás, dale que vá,
Que allá en el horno nos vamo a encontrar.
No pienses mas, echate a un lao,
Que a nadie importa si naciste honrao.
Que es lo mismo el que labura
Noche y día como un buey,
Que el que vive de los otros,
Que el que mata o el que cura
O esta fuera de la ley.