¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, fevereiro 07, 2008
 
SOBRE A PERICULOSIDADE
DO SCYTALOPUS IRAIENSIS



A revoada de ornitólogos que se abateu sobre minha cabeça ainda não cessou de bicar-me. Parece que toquei fundo nessas ternas alminhas. Mais que os ornitólogos, só os católicos se irritam tanto com minhas crônicas. E nisto católicos e ornitólogos, embora sendo raças distintas, em muito se parecem. De leitor que se assina Lucas, recebo:

Com relação à coluna intitulada “sobre a periculosidade dos ornitólogos” postada pelo autor Janer Cristaldo em 15/01/2007: Que grande idiotice. Vejo mais periculosidade nesse autor que veicula tais opiniões retrógradas sem considerar as conseqüências. Conheço vários ornitólogos e posso dizer, são pessoas muito boas, com boas intenções e que tem uma causa nobre: a sustentabilidade.

As aves são utilizadas como espécies bandeira. Elas representam o topo de um sistema ecológico equilibrado. A preservação de uma ave representa a preservação de todo um ecossistema associado. E, por outro lado, as aves ameaçadas são protegidas por LEI. Todas as espécies ameaçadas são, e qualquer ambientalista responsável, que registrasse, por exemplo de maneira hipotética, uma espécie de crustáceo planctônico que habita águas correntes que seja ameaçada, em uma área onde será instalada uma barragem, tem o dever de interromper o projeto temporariamente, até que se tenha uma maneira alternativa e segura de conduzir a construção da barragem sem prejudicar o crustáceo, ou permanentemente. Caso não o faça, estará agindo de maneira antiética e nada profissional.

Não se pode simplesmente postar de maneira inescrupulosa, irresponsável e ignorante que é mais importante o desenvolvimento ilimitado, e que se danem as espécies ameaçadas. Que se danem as aves. Vamos ignorar a opinião dos cientistas, seguir o modelo de desenvolvimento econômico dos países desenvolvidos, extinguir todas as espécies e condenar a humanidade num futuro próximo. Grandes problemáticas que estamos enfrentando agora, e enfrentaremos em breve, advém de pensamentos como esse. O aquecimento global, o derretimento das geleiras, o desmatamento na Amazônia, a conversão dos pampas em plantações de arroz, batata, pinus...

A própria pobreza enfrentada nos países em desenvolvimento é conseqüência desse pensamento. Consumir além dos limites que o ambiente suporta. Consumir inescrupulosamente. Foram os europeus que colonizaram o mundo inteiro e impuseram aos habitantes nativos que se encontravam em maior equilíbrio com a natureza, o seu modo destrutivo de se relacionar com o ambiente. Por que os índios brasileiros não poderiam estar até hoje coexistindo com um ambiente saudável através de costumes menos “civilizados”?

Não podemos ser radicais. Temos de encontrar alternativas de forma que as pessoas possam usufruir de um bem natural, sem por em risco a biodiversidade.
O macuquinho da várzea, ou Scytalopus iraiensis, por exemplo, é um passarinho endêmico que só ocorre em locais esparsos no Paraná e no Rio Grande do Sul. É exclusivo de banhados ciliares. Não irá migrar para outro lugar e para outro ambiente caso esse seja perturbado ou perdido. Creio que deva haver outros pontos onde a instalação de uma barragem seja possível, em outro local onde não imponha riscos á espécies.

Os tigres estão entre os felinos mais ameaçados, e como predadores topo de cadeia são essenciais para a manutenção da diversidade dos ecossistemas em que habitam. A manutenção da biodiversidade é que vai garantir a disponibilidade e qualidade de uma série de recursos que os ambientes naturais nos oferecem. Não devemos condenar as pessoas que habitam cantos remotos da índia a beberem estrume de boi, mas devemos preservar os tigres. Não devemos agir como nossos antepassados agiram, não podemos nos prender à tradições atávicas ultrapassadas e estúpidas. As espécies tem que ser conservadas, novas soluções têm de ser elaboradas para as problemáticas do desenvolvimento sustentável. Ou isso, ou quem poderá prever o que será?
A ciência está aí para isso. Crescer sem expandir. Desenvolver sem levar o planeta a um colapso. Os biólogos, dentre eles os Ornitólogos, são os profissionais que estam aí para encontrar alternativas de SUSTENTABILIDADE. Não creio que este conceito figure no vocabulário do autor.


O que só confirma minha tese sobre a periculosidade dos ornitólogos. Pelo jeito, já há um macuquinho da várzea ameaçando uma barragem. 99% das espécies que um dia habitaram o planeta já foram extintas. Pelo jeito, se o Scytalopus iraiensis se extinguir, terá chegado o final dos tempos. Quanto a ter água potável e energia ao alcance de centenas de milhares de pessoas, isso é secundário. Scytalopus iraiensis ou o apocalipse - eis o dilema com o qual se defronta a humanidade.