¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, agosto 13, 2008
 
AINDA A CLASSE MÉDIA



Prezado Janer,

Saudações,

Tenho acompanhado seus textos comentando a polêmica sobre a FGV ter classificado como classe média quem ganha pouco mais de mil reais por mês. Ao ler seus comentários sobre o assunto, não pude deixar de me lembrar de seus textos de janeiro deste ano, “Porque voltei” e “Sobre a volta”, em que você comentou o baixo custo de vida no terceiro mundo, principalmente da habitação, em comparação com o custo de vida na Europa.

Penso que o mesmo raciocínio pode se aplicar a um país territorialmente extenso com padrões de desenvolvimento diferentes entre diversas regiões. Não sou geógrafo ou economista, mas não me parece ser muito inteligente fazer como a FGV, ao estabelecer um patamar de renda, dizer que acima ou abaixo dele alguém pertence a tal ou tal classe, e afirmar que isso vale para o Brasil inteiro.

A maior parte de seus textos sobre o assunto faz referência ao absurdo de se afirmar que alguém com renda de R$1.064,00 é classe média em São Paulo. De fato, conheço pessoas que moraram aí na capital, conheço um pouco o interior do Estado de São Paulo, e sei que o custo de vida aí é altíssimo, pelo menos a partir do meu ponto de vista de morador de uma cidade de porte médio do interior de Minas. Com certeza, viver com essa renda na maior cidade do país deve ser muito difícil.

No entanto, em outros lugares do Brasil, mil reais mensais podem proporcionar um padrão de vida bem melhor do que em cidade de grande porte, principalmente em relação à habitação. Há pouco mais de dez anos, eu vivi por algum tempo em uma cidade de menos de vinte mil habitantes aqui em Minas. Não gastava com transporte, pois tudo era perto de onde eu morava. O aluguel era baixíssimo, e eu morava em um apartamento antigo, grande, muito espaçoso. O IPTU e condomínio eram insignificantes. Os preços em padarias, supermercados, quitandas, bares, eram mais baixos. Em lugares assim, alguém pode ser realmente considerado classe média, talvez não com mil reais (se tiver família para sustentar), mas com dois mil certamente.

Algo que me impressionou também foi uma viagem que fiz em 1997 ao Nordeste. Não sei como as são as coisas por lá hoje, mas naquele ano, percebi que o custo de vida em Fortaleza, cidade grande e capital de estado nordestino, era bem menor do que o custo de vida em minha Juiz de Fora, cidade média do interior de estado do Sudeste.

Digo tudo isso, pois acho que uma pesquisa como aquela deveria ser feita regionalmente, com faixas de renda e classe específicas para casos diferentes, tais como número de habitantes da cidade, se é capital ou interior, em que região está situada. Sou capaz de apostar que, em uma cidade pequena qualquer no interior de qualquer estado mais pobre, onde não há nem em que gastar dinheiro, mil reais mensais fazem de alguém um membro “das elites”.

Grande abraço,

Humberto Quaglio