¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, agosto 02, 2008
 
AINDA O BATEAU IVRE


De Estocolmo, recebo de minha gentilíssima anfitriã:

Aquele dia, estranhamente, o passeio foi super tranqüilo com uma maioria de famílias, muitas crianças e idosos, o que não é o normal. Como eram férias, os jovens ou viajam ou trabalham. Fora deste época, o normal é ver muita gente caindo de bêbada, brigando e até tentando suicídio.

Ainda bem que foi tranqüilo. Não suporto gente que não sabe beber. Mas suponho que, com a explosão de bares em Estocolmo, os Svensons já tenham aprendido algo sobre como beber sem se embriagar. Em meus primeiros dias de Estocolmo, em 71, tive uma experiência significativa. Eu tentava decifrar o que era leite numas Tetra Pak num supermercado, quando fui abordado por uma conterrânea, negra e linda. Conversa daqui, conversa dali, me convidou para visitá-la. Morava nos arredores de Estocolmo, em meio à floresta, mas onde se podia chegar por metrô. Fui lá.

Seu marido, piloto de corridas, me recebeu com uma mesa imensa, repleta de toda espécie de bebidas. Começou me oferecendo cerveja. Eu não falava sueco na ocasião. Como pensava em vinhos, tentei objetar: “first wine”. Não me permitiu. Insistiu que o vinho era para mais tarde. E foi me empurrando os mais diversos alcoóis, desde uísque até ponche, até que finalmente chegamos ao vinho. Isto é não saber beber. Fiquei de porre e tinha de voltar, em meio à floresta e à neve. Disse à negra linda: “vocês me desculpem, não tenho condições de voltar. Mesmo que me levem até o metrô, não saberei como chegar a meu hotel. Posso ficar?”

Ficamos, eu e minha Baixinha adorada. Em virtude das restrições ao álcool na Suécia, aquele Svenson não sabia beber. Só se embriaga quem não sabe beber. Era o caso dos suecos naqueles dias. Nas noites de fim de semana, no metrô, um odor ácido de vômito impregnava o ambiente. Adolescentes conseguiam embebedar-se com latinhas de cerveja.

Naquela primeira viagem, percorri os países do sul da Europa, onde se bebe o tempo e dificilmente se vê alguém embriagado. Na Itália, Espanha, França ou Portugal, as pessoas bebem a cântaros e com sabedoria, sem embriagar-se. Nos dias que vivi em Paris, vi gente empinando um Calvados às sete da matina. Claro que bêbados sempre os há. Mas eram muito mais encontradiços nos países onde havia restrições ao álcool.

Minha anfitriã insiste:

Se aprenderam, não o demonstram nestes navios e veja que vou nestes passeios com bastante freqüência. Mas que bom que foi tranqüilo just naquele dia. Beijos.

Não vou discordar de quem conhece o pedaço. Seja como for, foi muito bom navegar naquele bateau ivre. Beber sem skatt faz bem à alma.