¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, agosto 01, 2008
 
BRASIL MERECE


Uma leitora me escreve:

Veja a incoerência daqueles que querem fomentar o revanchismo. O senhor Tarso Herz Genro busca torturadores? Pois bem, comece por aqueles seus comparsas terroristas que torturaram e mataram, com requintes de sadismo, o Capitão Mendes Junior. Von Herz cuide dos assuntos que o senhor vêm negligenciando, tais como combate aos amiguinhos dos narcoterroristas das FARC, infiltrados no Governo Federal. Será que o senhor é um deles???

A leitora, ao acrescentar um Von, o associa ao nazismo. Ora, Tarso nunca foi nazista. Mas comunista. O que no fundo dá no mesmo. Mas é bom chamar as coisas pelo nome. Isso de catalogar canalhas como nazistas é coisa de comunista. Há uma condenação do canalha, mas a Idéia – como se dizia no século passado – é preservada. Além do mais, Tarso é judeu.

O que já escrevi contra o Tarso Genro, nos anos 70, antes que qualquer jornalista o denunciasse, daria uma bela antologia. Em uma de minhas crônicas, eu comentava sua retórica vazia. “Leio Platão e o entendo. Leio Tarso e não entendo nada. Talvez porque Platão é Platão e o Tarso é Genro". Isto escrevi há três décadas. Tenho escrito também ultimamente. Como a imprensa toda está denunciando não só as relações das Farc com o PT (isto foi levantado pelos jornais em 2005), considero que o público está bem informado sobre o assunto. Prefiro falar sobre coisas que a imprensa não fala. Mas certamente voltarei ao assunto. Leia melhor meus artigos, leitora, e você verá que, antes mesmo de o PT existir, antes de 80, eu já denunciava, no Correio do Povo e na Folha da Manhã, de Porto Alegre, os atuais líderes do PT: Tarso Genro, Flávio Koutzii, Pilla Vares, Marco Aurélio Garcia.

Há exatamente um ano, eu escrevia:

Não se fazem mais Tarsos como antigamente. O Genro, pelo que sabemos, continua fiel a sua filosofia de juventude. Nunca soube que tenha caído do cavalo, nem que tenha percorrido sua estrada de Damasco. Há alguns anos, eu li - juro que li - um artigo assinado por Genro no caderno "Mais" da Folha de São Paulo, onde ele falava da "ventura do stalinismo". Assim sendo, me parece totalmente despropositado falar de ex-marxista-leninista.

É curioso ver como as velhas raposas comunistas detestam ouvir esta palavrinha, sem jamais terem renegado a doutrina. Outro dia, eu escrevia sobre o deputado comunista Roberto Freire. Uma leitora, indignada, dizia que Roberto Freire nunca foi comunista. "Sempre foi socialista", jurava a moça. Num país de memória curta, as raposas simulam ter trocado de ideologia e não falta crédulo para acreditar na nova face. Esquecendo inclusive a antiga.

Com o desmoronamento da União Soviética, os velhos comunistas da Polônia, para marcar sua renúncia à antiga filosofia, eram submetidos a uma crucificação por uma hora. Crucificação sem pregos, é verdade, pulsos atados por cordinhas, que ninguém está aí para ser mártir. O gesto era simbólico, mas pelo menos trazia a público a decisão de renunciar ao comunismo. Não que eu queira ver o Tarso Genro ou o Roberto Freire atados por cordinhas numa cruz de mentirinha, nada disso. Mas o que se pede a um homem público que repudia uma doutrina é que manifeste este repúdio publicamente. Ora, não ouvi um só pio, seja de Tarso, seja de Freire, seja dos velhos comunistas herdeiros de Marx, Lênin e Stalin, manifestando sua renúncia à doutrina assassina. Para mim, continuam sendo comunistas.

Tanto que Tarso não hesitou em defender a deportação para Cuba, feudo do colega e dileto amigo Fidel Castro, de dois pobres diabos cubanos que queriam aproveitar o Pan no Brasil para pedir asilo na Alemanha. Não só defendeu como seu dedo ministerial deve estar por trás da deportação. É impossível que um ministro da Justiça não tenha tido ciência de uma operação assim delicada da Polícia Federal. A alegação esfarrapada é que os dois pugilistas estavam sem documentos e em situação irregular no Brasil. Foram presos em dois ou três dias e empacotados expressamente para Cuba. Ora, o Brasil tem centenas de milhares de colombianos, bolivianos, paraguaios, argentinos, uruguaios, coreanos, chineses e até mesmo europeus em situação irregular no Brasil e nenhuma Polícia Federal demonstrou tanto zelo em deportá-los com tanta rapidez.

Para justificar a volta dos cubanos a Cuba, Tarso, o ministro stalinista, declarou à Folha de São Paulo que quando foi exilado político optou por regressar ao Brasil, mesmo na ditadura, "porque queria voltar para minha pátria. Saí do meu país um dia e no outro queria voltar".

Leitor desmemoriado que lê esta declaração é capaz de imaginar que Tarso, o de São Borja e não o da Cilícia, esteve exilado em países distantes, de línguas estranhas e povo hostil, com oceanos de permeio. Ora, o exílio de Tarso foi bem mais singelo. E pragmático. Exilou-se... em Rivera, no Uruguai. Coitado do jovem poeta. Deve ter-se sentido terrivelmente dépaysé, assim longe da pátria que o viu nascer, a léguas de distância da São Borja natal e da Santa Maria que o acolheu. Para quem desconhece Rivera, esclareço que é uma cidade colada a Santana do Livramento, onde nasci. Apenas uma avenida, a calle Internacional, sem aduana nem controle algum, separa uma cidade da outra. Deve ser extremamente doloroso para um exilado sentar-se em um café em Rivera, olhando saudoso para a pátria longínqua e inacessível... no outro lado da rua.


Isso de denunciar monocordiamente o PT eu deixo para o cronista chapa-branca tucanopapista hidrófobo, que repete todos os dias o noticiário nacional. Além de fazer sistematicamente cut and paste, ele precisa purgar seu passado como esquerdista. Nunca fui de esquerda, não preciso purgar pecado nenhum. Considero que as denúncias da imprensa toda são mais que suficientes e não tenho vocação para menino de coral.

Em todo caso, estão sendo muito divertidas as afirmações dos ministros petistas de que nada têm a ver com as FARC. A denúncia nada tem de novo. É apenas comprovação do que a imprensa brasileira noticiava em 2005. Diga-se de passagem, o governo petista, ao arrepio da opinião internacional, sempre se recusou a qualificar as FARC como organização terrorista. Recebeu com tapete vermelho o chanceler das FARC, o tal de padre Olivério Medina, e não aceitou extraditá-lo para a Colômbia. Sem falar que presenteou a mulher do padre com uma prebenda. Agora, diante das evidências, quer retirar o seu da estaca.

Esta mania de malhar o PT o tempo todo, obsessivamente, tem algo de consciência suja. É óbvio que o PT, hoje, é uma quadrilha que tomou o poder e o exerce em benefício próprio. Mas há coisas mais interessantes para se escrever sobre do que os desmandos da quadrilha. Passei boa parte de minha vida denunciando as mazelas do PT e não pretendo cair na monotonia. Como a imprensa toda o denuncia, acho dispensável cantar no coral. O que não impede que, cá e lá, eu volte ao assunto. Mas não será o PT que pautará minhas crônicas.

Tem mais. Os brasileiros elegeram e reelegeram o Supremo Apedeuta. Merecem.