¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, agosto 13, 2008
 
DR. STRANGELOVE RIDES AGAIN


No Brasil, pelo jeito, basta morrer para virar herói. Pelo menos é o que se deduz das declarações do Supremo Apedeuta, proferidas ontem em um evento no Aterro do Flamengo. Disse o Supremo que é preciso "transformar os mortos em heróis e não em vítimas. Todas as vezes que falamos dos estudantes e operários que morreram, falamos mal de alguém que os matou". Com uma lógica obtusa que não se sustenta, isso significaria tratar os mortos como vítimas, e não como heróis.

Ao que tudo indica, ainda não avisaram Lula de que o Muro de Berlim caiu em 89, a União Soviética desmoronou em 91 e os comunistas são hoje vistos como os celerados que sempre foram. Houve nos anos 60 um inequívoco ataque comunista ao poder, uma repetição da tentativa frustrada de 35. Quem empunhou armas contra o Estado não poderia esperar ser tratado com flores. No fragor dos combates, é verdade, morreram pessoas que nada tinham a ver com o assalto ao poder. Ora, inocência nunca foi sinônimo de heroísmo.

Enfim, em um governo cujos ministérios foram tomados pelos guerrilheiros dos anos 60, não é de espantar que prevaleça tal ponto de vista. Mas pretenderá Lula que um Lamarca, desertor, terrorista e assassino, seja tratado como herói, só porque foi morto pelo Exército? Melhor então ser coerente e apoiar o revanchismo de Tarso Genro, que só aceita anistia para as esquerdas.

Lula, devo admitir, tem um mérito: traiu o programa do PT. De quando em quando, no entusiasmo do verbo, tem uma recidiva e volta aos dias da Guerra Fria. É quando se ergue aquele braço que o Dr. Strangelove, no filme de Kubrick, não conseguia conter.