¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, agosto 14, 2008
 
FEIRA DAS VAIDADES


Começa hoje em São Paulo a 20ª Bienal Internacional do Livro. Nos próximos dez dias, o Anhembi abrigará 900 editoras, que expõem mais de 200 mil títulos, sendo 4.000 lançamentos. Ao todo, serão mais de 2 milhões de livros à venda, contra 1,5 milhão na última edição, em 2006. Um leitor quer saber o que penso da Bienal.

Não penso nada. Não me interessa e não perderei meu tempo indo até lá. Os paulistanos adoram esses grandes eventos e há quem se sinta out se não os freqüenta. Até mesmo livrarias como a FNAC ou a nova Cultura são grandes demais para mim. Tenho particular apreço por livrarias menores, onde fazer a ronda das lombadas não é exercício tão aleatório. Ainda este ano, estive na Feira de Madri. Cansei de tanto caminhar e acabei comprando um mísero livrinho.

Há uns bons vinte anos, visitei a Bienal de São Paulo. Queria ver como era. Se arrependimento matasse, eu não estaria aqui escrevendo sobre esta Bienal. Quilômetros de livros expostos, tomados geralmente por crianças, adolescentes e gente que nada tem a ver com livros. Vão lá apenas passear, afinal visitar tais feiras confere sempre um ar intelectual a quem as visita. As crianças e adolescentes são empurrados pelas escolas, para inflar o número de visitantes. Isso sem falar que a profusão de luminárias me fez suar a cântaros. Sufocante. Na Feira em que estive, havia milhares de pessoas numa fila para receber autógrafos ... de Jô Soares. Ora, não freqüento tais ambientes.

Quem vive no universo do livro não visita feiras. Os livros estão aí, em todas as livrarias o ano todo. Não bastasse isto, encontramos na Internet qualquer título. Por outro lado, minha biblioteca de cabeceira está cada vez mais assustadora. Devo estar com uns 40 volumes, livros que quero ler e não sei quando vou dar conta deles. Estou inclusive tomando distância de livrarias em minhas viagens. De nada adianta você comprar livros que não consegue ler. Certo, alguns são de referência. Mas a maior parte não. Nesta última viagem, só ousei entrar na Compagnie des Lettres, uma simpática e acolhedora livraria na Rue des Écoles, em Paris. Comprei uns seis quilos de livrinhos e dei por concluído meu consumo literário.

As Bienais são sucursais da indústria do livro, essa indústria que só quer vender, não importa o quê. Ora, numa época em que os bons livros – apesar da época – são muitos e sequer temos tempo de lê-los, é bobagem procurá-los numa bienal. Visitá-la é vaidade de consumidores sem critério, que querem ser tidos como cultos. Vaidade também de escritores medíocres, que se sentem grandes só porque sob holofotes. Proponho um teste ao leitor mais sofisticado: ao final da Bienal, dê uma olhadela na lista dos mais vendidos.

Você não vai encontrar coisa que preste.