¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, agosto 06, 2008
 
FGV PROMOVE CRISTINA


Cristina, minha secretária de assuntos domésticos, recebe 85 reais a cada faxina que faz aqui em casa. É diarista e faz outros apartamentos durante a semana. Suponhamos que cobre uma média de 80 reais por faxina. Sem trabalhar aos sábados e domingos, tira 1.600 reais por mês. Ontem, a Fundação Getúlio Vargas promoveu Cristina à classe média.

Leio na Folha de São Paulo que, “de cada cem trabalhadores das seis maiores regiões metropolitanas que estavam em situação de miséria em janeiro deste ano, 32 aumentaram sua renda e mudaram de classe social após quatro meses. Essa maior mobilidade ajudou a reduzir a desigualdade e encorpou a classe média. É o que mostra estudo divulgado ontem pelo economista Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da FGV. A pesquisa identifica que esses movimentos de aumento da classe média e de redução da desigualdade, que começaram a ser detectados nesta década, continuam fortes neste ano. (...) O estudo da FGV definiu como classe média a população cuja renda domiciliar total se situava entre R$ 1.064 e R$ 4.591”.

Ou seja, estou contratando a classe média para fazer minha faxina e ainda não me dei conta disto. Ou, por outro lado, a tal de classe média está tendo de fazer faxina para sustentar-se como classe média. Ora, contem outra. Moro em Higienópolis, bairro tido como de classe média. Só de condomínio, pago 650 reais. (Devo confessar que, comparado com demais condomínios do bairro, não está caro). Tivesse de pagar aluguel, lá se iriam mais uns dois mil reais. Que classe média é essa cujo salário chega sequer à metade do que se exige para morar em um bairro de classe média, conforme os parâmetros mínimos da FGV? Estou falando só no morar. Comer, vestir, saúde, educação, energia, telefonia e lazer custam bem mais. Mesmo se pensarmos em 4.500 reais, esta renda domiciliar vira zero quando se tem um filho adolescente.

Conheço uma jornalista, solteira e sem filhos, que mora na Consolação, bairro longe de ser considerado de classe média. Por um mero quarto e sala paga 1.200 reais. São os preços do bairro. Já os teóricos da FGV nos acenam com uma renda – familiar – menor que isso para definir classe média. É mentira hiante! Que a FGV sofisme, isto se entende. Terá seus interesses a defender.

O que é difícil de entender é que a imprensa engula tal sofisma, sem tugir nem mugir.