¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, agosto 11, 2008
 
LEITURAS QUE TRANSFORMAM



El País perguntou a cem escritores de fala hispânica quais os dez livros que haviam mudado suas vidas.

Sem dúvida, as votações deram resultados curiosos, ou em alguns casos, incríveis: que faz o Manifesto Comunista, por exemplo, em 82º lugar, adiante dos sonetos de Quevedo e do Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald? Claro que o pior foi para a Divina Comédia e a Ilíada, que estão em 60° e 77°, respectivamente. (...) Dante está no fundo da lista, mas bem acompanhado, pois tem logo acima Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, e justo sob La Regenta, de Clarín. A verdade é que, no âmbito da literatura latino-americana, Jorge Luis Borges dá uma surra em todos, de Gabo a Vargas Llosa, passando por Rulfo, Cortázar e Onetti. Ficciones é o número dez da lista; o Aleph, o 26°; El Hacedor, o 58°.

Confesso que não me reconheço nesta lista. Onde fica a Bíblia? Se há uma leitura que me transformou, foi a leitura do Livro. Tornei-me ateu, e este foi um dos grandes contributos da Bíblia à minha vida. O Manifesto Comunista não é literatura, mas panfleto. Só convence quem já quer ser convencido. Quevedo? Pode ser, mas não diz muito em nossos dias. Fitzgerald, confesso que desconheço. Divina Comédia, gosto do que todo mundo gosta, o Inferno. Paraíso e Purgatório são entediantes. A Ilíada, até hoje não consegui ler. Cem Anos de Solidão me fascinou, de início. Na segunda leitura, achei uma bobagem. Clarín está em minha biblioteca. Também não consegui ler. Rulfo, Cortázar e Onetti sempre me foram eméticos. Gostei das ficções de Borges, mas nada que mudasse minha vida. Não entendo muito bem a idéia de que a ficção possa mudar a vida de alguém.

Já Fernando Pessoa e José Hernández, tudo bem. Foram os dois livros que me ampararam nos dias de Suécia, o Martín Fierro, do argentino, e Poesias Completas, do luso. Não sei até que ponto me transformaram, no sentido de que uma obra poética não visa transformar ninguém. Poesia não fala à razão. Mas Pessoa e Hernández sempre foram – e ainda são – momentos de reconforto.

O que fala à razão são os ensaios. Neste sentido, foi importante para mim ler Porque não sou cristão, de Bertrand Russel. Como também Hacia una moral sin dogmas, de um obscuro pensador argentino, José Ingenieros. Este último, ao relê-lo há uns dez anos, não me disse muita coisa. Mas foi muito importante em minha adolescência.

Para Russel, os três impulsos humanos que a religião representa são o medo, a vaidade e o ódio. "O propósito da religião, poderia dizer-se, é dar uma certa respeitabilidade a estas paixões, desde que sigam por certos canais. Como estas três paixões constituem em geral a miséria humana, a religião é uma força do mal, já que permite aos homens entregar-se a estas paixões sem restrições, enquanto que, não fosse pela sanção da Igreja, poderiam tratar de dominá-las em certo grau".

Para quem andava em conflito com a ética católica, o pensador inglês era um apoio caído dos céus. Russel pecava pelo otimismo, acreditava que a humanidade já possuía os conhecimentos necessários para assegurar a felicidade universal. Sua vontade de crer no homem punha entre parênteses o fator estupidez. De qualquer forma, era reconfortante ouvir que o principal obstáculo para a utilização daqueles conhecimentos na obtenção da felicidade era o ensino da religião.

"A religião impede que nossos filhos tenham uma educação racional; a religião impede suprimir as principais causas da guerra; a religião nos impede ensinar a ética da cooperação científica em lugar das antigas doutrinas do pecado e do castigo. Possivelmente a humanidade se encontra no umbral de uma idade de ouro; mas, se assim for, primeiro será necessário matar o dragão que guarda a porta, e este dragão é a religião". Muitos outros trechos sublinhei em Russel. Embora não participe de seu otimismo em relação ao bicho-homem, acredito que dentro em breve as nações mais desenvolvidas, ou pelo menos as camadas mais cultas destas nações, terão reduzido as religiões a meros verbetes de enciclopédias.

Se hoje os professores se queixam de que os alunos lêem pouco ou coisa nenhuma, em Dom Pedrito, os oblatos do colégio Nossa Senhora do Patrocínio e as irmãs do colégio Nossa Senhora do Horto, com as quais mantínhamos algum diálogo, viviam um drama inverso: nós líamos demais. (Por nós, entenda-se um grupo de cinco ou seis ginasianos, desconfiados com a cultura oficial e ávidos de idéias novas). O livro de Ingenieros, encomendamos de Montevidéu, através da irmã Helena, do Horto. Quando fui apanhá-lo, a coitada se consumia em dilemas, não sabia se nos entregava ou nos subtraía o livro, se o jogava no fogo ou se o guardava. "Este livro é diabólico, me queima nas mãos, não posso entregá-lo a vocês". Não há outra saída, ponderei, agora mesmo é que queremos o livro. Se não nos entregasse, criava um atrito inútil, sem falar que Montevidéu não era assim tão longe. O livro finalmente foi entregue, não sem mais algumas trecheadas angustiadas da irmã Helena. Soube, alguns anos depois, que ela renunciara ao hábito. Em parte terá sido em função de Ingenieros, o que me envaidece. Ainda adolescente, dei uma mãozinha para salvar alguém do ranço vaticano e do dogmatismo.

Por boa leitura entendo a leitura que nos transforma. Ficção pode dar prazer, mas não tem esse poder. A última ficção que li foi a última que traduzi, e isso já deve fazer mais de 25 anos. Sempre faço a ronda das livrarias em minhas viagens, mas não dirijo sequer um olhar aos rayons de ficção. Claro que sempre é bom reler o Quixote ou As Viagens de Gulliver. Ou 1984.

Ocorre que estes livros, antes de serem ficções, são ensaios sobre a condição humana.