¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, agosto 15, 2008
 
O NOTÁVEL ESFORÇO BRITÂNICO


Comentei em crônica passada que os brasileiros estavam se tornando os árabes da Europa. Nunca vi maiores restrições a brasileiros em minhas primeiras viagens, há quase 40 anos. Hoje, a palavra brasileiro está se tornando sinônima de vigarista, quadrilheiro e traficante de migrantes. Leio hoje no Diário de Notícias, de Lisboa, que a polícia espanhola acaba de desmantelar uma rede que falsificava carimbos de entrada e de saída do espaço Schengen em passaportes que depois vendia a prostitutas por valores que iam dos 300 aos 500 euros. Este esquema permitia às mulheres que entraram como turistas permanecerem em território da UE. Em verdade, en lo vá de año - como dizem os espanhóis - a polícia daquele país tem desmantelado uma quadrilha por mês.

Segundo fontes da polícia, a organização operava no aeroporto internacional de Barajas, em Madri, e era composta por um grupo de brasileiros, que vendia os carimbos de passaporte a mulheres da mesma nacionalidade. Oitenta e quatro pessoas foram detidas, metade das quais acusadas de falsificação de documentos, quer por colaborarem com a organização como intermediários em casas de prostituição, quer por terem carimbos falsos nos passaportes. A outra metade é acusada de violar a Lei da Imigração, pois, a cada três meses, compravam os carimbos falsos para provar a passagem turística por Espanha.

Não por acaso, nossos patrícios vêm sendo devolvidos aos magotes, de países como Espanha, Portugal, Grã-Bretanha e Estados Unidos. Em meio a isso, noticia hoje a imprensa brasileira que o governo britânico quer impor aos brasileiros a necessidade de visto de entrada, a partir do próximo ano. Há dois meses, o Brasil foi colocado na lista de países "suspeitos" - pelo alto índice de imigrantes ilegais ou de outros crimes -, ao lado de Bolívia, Malásia, África do Sul, Botsuana, Namíbia, Venezuela, Trinidad e Tobago, Lesoto, Suazilândia e Ilhas Maurício.

Até aí, nada de novo. A novidade reside nas propostas dos britânicos, como colocar um policial britânico na imigração do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. Esse "oficial de ligação internacional" daria treinamento às companhias aéreas sobre passaportes e identificação de fraudes. Também foi sugerido que as agências de turismo, para que não funcionem como "facilitadoras" de ilegais, entrevistem os clientes e não vendam passagens a quem apresentar indícios de que não seja um "visitante genuíno" - empresário, turista ou estudante.

Além de arrogante, a proposta é inútil. O tal de oficial de ligação internacional fiscalizaria apenas os brasileiros que se dirigissem à Grã-Bretanha? Seria como enxugar gelo, pois alguém sempre poderia sair daqui rumo ao Uruguai, Argentina, Portugal, Espanha ou Itália e depois seguir para a Grã-Bretanha. Ou pretenderia este oficial determinar quem é um “visitante genuíno” em qualquer país do mundo? Quanto a recomendação às agências de turismo, o absurdo é total. Pretenderão os britânicos que as agências de viagem assumam um papel de polícia e saíam a investigar as condições econômicas de seus clientes? Que mais não seja, como fariam esta investigação? Contratando detetives para furungar a vida de quem compra passagens?

Os ingleses já raciocinaram com mais tirocínio. A medida mais eficaz é exigir visto de entrada, ora bolas. Como fazem México e Estados Unidos. Como fez um dia o espaço Schengen. Em algum de meus passaportes, tenho um vistoso carimbo que me permitia entrar e transitar pelo espaço Schengen. Curiosamente, esta exigência foi abolida, pois nos anos seguintes não se falou mais no assunto.

Segundo o Estadão, a Grã-Bretanha já chegou a pensar em simplesmente estabelecer visto para brasileiros. "Mas interesses econômicos da Inglaterra prevaleceram e, temendo receber reciprocidade e dificuldades para entrar no Brasil, o governo inglês optou por debater o assunto antes com as autoridades de Brasília", explicou um funcionário do governo britânico.

Outra perguntinha que se impõe: a Grã-Bretanha pretende também instalar oficiais de ligação na Bolívia, Malásia, África do Sul, Botsuana, Namíbia, Venezuela, Trinidad e Tobago, Lesoto, Suazilândia e Ilhas Maurício? Continuando: por que não na Somália, Uganda, Rwanda, Nigéria, Marrocos, Argélia, Rússia, Romênia, Albânia et caterva?

Ao que tudo indica, as autoridades britânicas estão fazendo um esforço notável para superar as brasileiras em matéria de incompetência.