¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, agosto 05, 2008
 
PERVERSÕES DA GASTRONOMIA


Leio na Veja que o hambúrguer mais caro de Nova York é vendido em Wall Street e acaba de subir de preço. A refeição, servida com grãos de ouro comestíveis, custava 150 dólares, e agora sai por 175 dólares (cerca de 290 reais). Haja estupidez. Pois é preciso ser muito idiota para, primeiro, pagar 175 dólares por um hambúrguer. Segundo, para comer grãos de ouro.

Pelo jeito, os sanduíches estão em franca campanha para serem promovidos a alta gastronomia. Na semana passada, o Estadão dedicava quase um suplemento inteiro à promoção do hambúrguer. Uma jornalista americana pretendia que este bifinho picado era o must dos restaurantes franceses, onde chegaria a custar 35 euros. Ora, acabo de voltar de Paris e o que mais fiz por lá foi visitar restaurantes. Nos meus diletos, não encontrei nem sombra de hambúrgueres. Você pode encontrá-los nos cafés, onde se pode fazer um repasto sem maiores requintes. Mas não em restaurante que se preze. Hambúrguer não é cozinha. É fast food.

Por 35 euros, você pode consumir grandes pratos da gastronomia francesa. Aliás, por bem menos que isso. Os ianques, sempre os considerei como bárbaros na hora de comer e beber. Que sabor tem o ouro? Isso de comer sanduíches recheados com ouro é coisa de novo rico, que acha que está comendo bem só porque come caro. Em Roma, encontrei certa vez um café que vendia uma taça com essências de perfumes a 50 euros. Você cheira... e bom proveito. Finito. O inacreditável é que há quem os consuma.

Nada contra os sanduíches. Mas pagar 175 dólares – ou mesmo 35 euros – por um deles é insânia. Confesso que tenho até alguma predileção por comida de rua. Em Paris, costumo dedicar uma refeição ao merguez com chili, uma espécie de cachorro-quente com uma lingüiça árabe, que queima como brasa na boca. Curiosamente, nesta São Paulo que tem tantos restaurantes árabes, nunca vi nem sombra de merguez. Seja como for, não custa mais de cinco euros. Alerta aos navegantes: se algum leitor quiser degustá-lo, é altamente recomendável que tenha água por perto. Nas primeiras dentadas, o chili mal se revela. Na terceira ou quarta, começa a queimar.

Ano passado, por curiosidade, experimentei uma dessas extravagâncias. Estava no Rubaiyat, churrascaria próxima à Avenida Paulista, e o cardápio tinha o tal de bife Kobe. Leio ainda na Veja, que “para a maioria dos gastrônomos, não há carne bovina igual à produzida na província japonesa de Kobe. O famoso bife de Kobe, garantem os principais especialistas em carne vermelha, é o que de melhor se pode comer em termos de proteína. Mas aí é golpe baixo porque os boizinhos de Kobe são tratados com aveia e cerveja, recebem três sessões diárias de massagem, descansam sobre tapetes térmicos, são tratados com acupuntura e ouvem música erudita o dia todo, para se distrair. Resultado: um quilo dessa carne chega a custar 1 000 dólares. Existe um restaurante em Nova York, o Nello, que já chegou a cobrar 750 dólares por um bife de Kobe acompanhado de batatas fritas”.

Bom, não paguei – nem jamais pagaria – tanto. Na época, a suposta iguaria custou-me 110 reais. O garçom quis saber se eu queria o filé gorduroso ou sem gorduras. Pedi sem gordura. Veio um filé branco de tanta gordura. A gordura não é como na picanha, concentrada fora da carne. Fica espalhada entre as fibras musculares, dando à carne uma aparência de mármore. Daí a denominação de carne marmorizada. Macia, é verdade. Mas nada de especial além disso. Esqueci de perguntar ao garçom que compositor o boi ouvia quando foi abatido. Certamente não era Brahms nem Beethoven. Talvez Chopin ou Liszt.

Há muita gente pagando caro para comer mal.